Em 2001, a cidade do Porto foi distinguida, juntamente com Roterdão, como Capital Europeia da Cultura. É por esta altura que o projeto da Casa da Música começa a dar os primeiros passos: começa a ser pensado desde 1998 aquele que se pretendia que fosse um edifício distinto, marcante, onde a música teria sempre lugar. Manuel Maria Carrilho estava na chefia do Ministério da Cultura e a obra começava a fugir da ideia inicial de ser um projeto de cariz público-privado.

O Concurso de Arquitetura para o Projeto da Casa da Música foi iniciado em 1999. Para tentar limitar as candidaturas a arquitetos profissionais com provas dadas na área, foram feitos convites diretos a alguns nomes, como Zumthor, Hadid, Foster, Siza Vieira, Herzog, Meuron e Koolhaas (que acabaria por ser o favorito dos jurados). A escolha final foi alvo de alguma polémica e discórdia. No entanto, a forte componente visual no projeto de Koolhaas viria a distingui-lo dos restantes que, por serem mais conservadores ou menos ambiciosos, foram ficando para trás.

Koolhaas é de origem holandesa e estudou arquitetura em Londres. Em 2007, o Instituto Real dos Arquitetos Britânicos (RIBA) classificou o edifício como “intrigante, inquietante e dinâmico”, e atribuiu ao arquiteto o prémio RIBA.

A arquitetura da Casa não deixa ninguém indiferente e, por isso, o JPN foi conversar com alguns docentes e alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP) para descobrir qual a opinião dos mesmos relativamente ao edifício e se o modernismo associado à sua arquitetura se expande por aqueles que são os arquitetos do futuro.

A visão dos docentes

No sentido de tentar perceber a importância que o edifício da Casa da Música tem na cidade do Porto e no ensino arquitetónico, o JPN conversou com João Pedro Xavier, vice-diretor  e docente da FAUP, e Rui Ramos, vice-reitor da Universidade do Porto e docente da mesma faculdade.

Quando questionados sobre o que distingue a Casa dos restantes edifícios do Porto, João Pedro Xavier afirma que as principais diferenças estão relacionadas com “a individualização da Casa como peça arquitetónica, mas, sobretudo, pressente-se que o edifício arranca do subsolo com consequências evidentes de tratamento da plataforma onde assenta, que se movimenta, abrigando espaços diferenciados e moldando a base envolvente de forma inesperada”.

Já Rui Ramos invoca razões de cariz mais histórico e infra-estrutural, dizendo que “não há comparação entre o edifício construído no final do século XX e os restantes edifícios da cidade, que foram, na sua grande maioria, construídos nos séculos XVII e XVIII”.

Ambos os docentes admitiram utilizar o edifício como caso de estudo na FAUP, até porque “é impossível que um edifício de Rem Koolhaas, construído no Porto, não tenha repercussões nesta Escola, tanto mais por se tratar de um equipamento relevante com um papel ativo na transformação da cidade, particularmente da sua zona ocidental”.

“Os aspetos referidos inicialmente em relação à revalorização ou integração da cobertura no todo formal do edifício constitui um exemplo prático, plenamente conseguido, das lições dos nossos mestres. Também as questões relativas à sua inserção no espaço urbano são permanente objeto de reflexão”, concordam os professores.

João Pedro Xavier realçou ainda que já existem edifícios na cidade inspirados na Casa da Música, como é o caso d’”a sede da Vodafone, um conjunto habitacional na Rua Pedro Veiga, entre a Rua Guerra Junqueiro e o Cemitério de Agramonte, e uma farmácia à Ramada Alta, à parte de qualquer juízo de valor”.

Os arquitetos do futuro

Se do lado dos docentes as opiniões reúnem algum consenso, da parte dos alunos existe uma divergência de ideias. Será que o gosto pelo modernismo associado ao edifício da Casa se espalha aos arquitetos do futuro? Para saber a resposta a esta questão, o JPN esteve à conversa com duas estudantes da FAUP, Maria João Amaral e Salomé Ventura.

Maria João considera a Casa como “um edifício que conjuga o lado intelectual com a sua beleza estrutural, fazendo dele um ícone da cidade do Porto”. Já Salomé Ventura afirma que o espaço é chamativo “pelo seu lugar de centralidade na cidade, depois pela sua escala, e, depois, pela sua forma não-convencional, pouco familiar, e, até, excêntrica”.

Maria João considera que o edifício tem “uma forma ímpar” e, por isso, se distingue do restante tecido urbano. Acrescentou ainda que a Casa é uma inspiração, pois, como aluna do primeiro ano de Arquitetura, tenta “receber o máximo de informação” para conseguir responder a qualquer desafio que lhe seja proposto.

Já Salomé Ventura não se identifica com o molde do edifício, afirmando que “a Casa da Música constitui um edifício-objeto que, quer pela forma como foi pensado, tanto a nível formal como construtivo, quer pela forma como é inserido no tecido urbano, parte de uma ideia de cidade” com a qual não se identifica, embora admita que é “capaz de reconhecer em Rem Koolhaas diversas virtudes, como arquiteto”, mas não se consegue identificar com a sua forma de ver a arquitetura e a cidade.

Passados dez anos, a arquitetura da Casa da Música ainda é um bom tema de conversa e as opiniões parecem dividir-se relativamente ao gosto pelo traço
que a constitui. No entanto, é impossível negar que as linhas do edifício não deixam ninguém indiferente e que a sua construção como principal sala de espetáculos na cidade do Porto foi benéfica para a Invicta. Os arquitetos portuenses têm a Casa bem estudada e não negam a forma distinta do sítio onde a música se propaga.

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Infografia de Filipa Mendes e Nídia Azevedo