No próximo dia 20 de novembro, sábado, irá acontecer no Centro Cultural de Belém (CCB) a entrega dos prémios Sophia. No concurso à parte do principal, os prémios Sophia Estudante, foram enviados mais de 65 filmes para apreciação da Academia Portuguesa de Cinema, vindos de 15 escolas diferentes. Os trabalhos separaram-se em quatro categorias distintas: Ficção, Documentário, Animação e Experimental.

Nesta diversidade de trabalhos recebidos espalhados pelas diferentes categorias existentes, apenas 25 foram nomeados para a fase final do concurso. As categorias de destaque, Ficção e Documentário, ambas possuem 9 e 8 finalistas, respetivamente, enquanto nas variantes de Animação e Experimental, serão 4 e 5 os candidatos aos prémios.

No meio destes 25 trabalhos especiais, é possível reparar que vários são originários do Porto. O JPN dá-lhe então a conhecer estes trabalhos que irão para Belém representar a zona do Porto e falou inclusivamente com alguns destes artistas sobre os seus trabalhos e os seus sentimentos em relação à nomeação.

Ficção

Na categoria de Ficção, são dois os trabalhos finalistas vindos da área do Porto. O primeiro, realizado por Pedro Crispim, vem da Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE). Com o título “Palhaços“, a peça conta a história de Jorge, palhaço de profissão e da sua tentativa obsessiva de recuperar o seu antigo companheiro e também palhaço, Marco, que agora está num relacionamento com Luísa, uma equilibrista.

O segundo trabalho chama-se “Marasmo” e tem realização de Gonçalo Loureiro, apresentado através da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Em “Marasmo” conta-se a história de José, um camionista de longo curso, que por ser forçado pelo trabalho a afastar-se da sua família por grandes durações, vê-se gradualmente a afastar-se da mesma psicologicamente. A curta, que se estreou no festival Curtas Vila do Conde marcou também presença no Meetings of Young European Cinema que se realiza anualmente em Sofia, na Bulgaria, está agora no Competição de Escolas de Cinema Europeias do Lisbon & Estoril Film Festival.

Os trabalhos portuenses terão que enfrentar dois vindos da Restart, intitulados “Ventil” e “Procura-se Sófocles”, dois da ETIC, “Do Silêncio” e “Boa Noite Cinderela”. Da Universidade da Beira Interior (UBI), vem o trabalho “Que é Feito dos Dias na Cave”, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT) vem “Turp” e por fim, “Leonor” é o último dos trabalhos finalistas na ficção, vindo da Universidade de Aveiro (UA)

Documentário

Para a área de documentário, a competição também será difícil. Apesar disso, esta categoria é a mais prolífica para os estudantes do Porto ao contar com três presenças distintas. A UCP conseguiu dois trabalhos dos seus alunos, através de “Cidade das Traseiras” de Carolina Prista e “O Barbeiro Guitarrista” de André Almeida Rodrigues.

Carolina Prista falou ao JPN sobre a sua peça que faz um “paralelismo” sobre as “ilhas” do Porto. É um olhar sobre “o passado e o presente” que aí convivem em simultâneo. O interesse em criar um documentário, vindo da profunda ligação à área por parte da realizadora e da sua família, surgiu em 2014 com as obras de reabilitação que aí surgiram.

Estudou as condições em que se inseriam os moradores e traçou os retratos das pessoas, “sobretudo idosas”, mas assistiu também à presença de jovens, que não era comum. “O meu documentário é precisamente sobre isso, sobre o futuro possível das ilhas do Porto porque a probabilidade delas morrerem era gigante”, referiu a própria.  Em relação à nomeação, a mesma afirmou ter-se sentido contente, “como qualquer pessoa se sentiria” e que não estava à espera. “É sempre bom alguém ver o meu trabalho e gostar e poder falar sobre ele. Quero que as pessoas sintam alguma coisa a vê-lo, é esse o meu objetivo”, indicou a jovem. O seu novo foco é a ficção, na qual tem trabalhado este ano. A estudante sabe que a competição será difícil e mantém os pés assentes na terra, apesar de ter “orgulho no seu trabalho”.

Já a obra de André Almeida Rodrigues, “O Barbeiro Guitarrista“, é na verdade um retrato do seu tio em 2.º grau, Álvaro Martins, conceituado artista de guitarra portuguesa. O documentário aborda a carreira do artista e é um relato da sua vida, obra e também do seu legado para o mundo da música e do fado em particular. André Almeida Rodrigues também falou ao JPN sobre o seu filme. “Sempre ouvi falar do meu tio como um grande guitarrista”, revelou o realizador. A ideia deste projeto criado durante o primeiro ano de mestrado em Som e Imagem, surgiu porque André se apercebeu que, quando falava em fado e música e fazia referência a Álvaro Martins, as pessoas não o conheciam. Sobre a nomeação, foi com “enorme satisfação” que a mesma foi recebida. “Não tive equipa para o fazer, foi tudo feito por mim”, admitiu o jovem cineasta. Só a música é que não foi criada pelo natural de Leça de Balio. Quanto à competição, o próprio admite que “pouco conhece dos outros nomeados”, mas sabe que entre eles encontra-se “Terra-Mãe” de Ricardo Couto, visto que ambos trabalhos estiveram inseridos no ciclo “Mostrarte“, concurso secundário do Imagens do Real Imaginado da ESMAE, que já tinha sido referido pelo JPN.

De facto, se André Almeida Rodrigues se lembra da presença de “Terra Mãe” é porque este trabalho arrecadou três prémios na primeira edição do Mostrarte, entre os quais o Grande Prémio atribuído pelo júri e o prémio atribuído pelo público. Realizado por Ricardo Couto, em conjunto com Sara Marques, Sara Lemos e Fábio Coelho, mestrandos em Cinema Documental da ESMAE, este documentário de residência artística sobre o concelho de Boticas, perto de Chaves, é também o último dos três nomeados portuenses ao prémio Sophia desta categoria.

Júri

Para proceder às escolhas dos vencedores, a Academia de Cinema anunciou que o júri seria composto cinco pessoas oriundas de partes essenciais do mundo do cinema. Para esta edição de 2016, o júri será então composto pelos atores José Fidalgo e Teresa Tavares, pelo produtor Nuno Bernardo, pelo realizador José Carlos Oliveira e pela agente Cecília Mateus.

O realizador desta peça conversou com o JPN sobre o trabalho realizado em Trás-os-Montes. “Para nós era importante que este trabalho tivesse algum tipo de reconhecimento porque foi algo que nos deu muito prazer fazer, que gostamos muito de realizar em conjunto”, revelou Ricardo Couto. De facto, esta foi a primeira peça que o conjunto realizou, e o facto de terem sido tão aclamados é algo que os deixou muito orgulhosos. “É engraçado vencermos num festival que está no seu primeiro ano com a nossa primeira obra”, comentou. O processo de realização do filme exigiu a visita dos locais em tempo apelidado de “préparage”, que serve para “visitas, reconhecimento de espaço, procura de uma história” para filmar. “Estamos a falar de quatro pessoas com quatro olhares diferentes”, revelou, apesar de admitir que a visão para o trabalho foi comum. Aí acompanharam a história de uma família enquanto retrataram a região como a observaram.

Sobre as suas chances para aceder ao prémio Sophia, o mesmo mantém-se sereno e lembra que “este ano houve mais propostas de documentários do que de ficção”, o que revela a alta qualidade dos trabalhos finalistas. “Ficamos muito surpreendidos com a nomeação mas ficamos muito contentes porque é mais um reconhecimento do nosso trabalho, independentemente do resultado”, admitiu o jovem cineasta. Depois de terem sabido da nomeação enquanto estavam em aula, o grupo está feliz com a nomeação por saber que “os prémios com relevância principalmente para estes meios académicos”. “Não existem muitos apoios para quem quer fazer cinema em Portugal, então é bom que tenhamos estes reconhecimentos para que nós sentirmos que o que estamos a fazer é o primeiro passo para alguma coisa”, confessou.

A competição que os três documentários irão enfrentar vem de sítios já referenciados, como a ULHT, com os trabalhos “O Que Resta” e “Para lá do Marão”, a ETIC, com “LEGO” e “Fragmentos do Tempo”, e a Universidade de Aveiro, com “Um dia na vida do pastor Boaventura”.

Animação

Para a parte de “animação” destes prémios Sophia, existem 50% de hipótese da vitória vir ter à Invicta. Dos quatro trabalhos candidatos ao prémio, dois deles são do Porto.

Um trabalho da ESMAE chamado “Meada”  foi construído por Linnea Lidegran. É uma peça que se inspirou em parte num provérbio mirandês – “L cielo? Ua capa que todo tapa!” – em que Moço, personagem central da história, é um jovem pastor. O mesmo “passa os seus dias a remendar os rasgões que os montes desgastam no céu”, revelou Linnea. O problema é que, à noite, o seu sono é atormentado por Sécia, “a irmã que vive do outro lado da abóbada celeste” e também por Farândola, a “velha sementeira de estrelas” que “tenta chamar o coração do pastor à razão”. A peça ocupou um semestre a ser realizada a nível técnico, tratando-se do trabalho de fim de licenciatura da estudante. “As acções principais, assim como grande parte dos elementos dos cenários, foram desenhadas em papel pela preferência da textura robusta que a grafite consegue dar”, explicou a jovem. Depois, ainda foi tempo de “procura das vozes das personagens, respectiva gravação, composição da música”. A parte final foi a da animação propriamente dita e da edição, feitas digitalmente.

Sobre a nomeação, a própria confessa que “foi uma boa surpresa, definitivamente”. Admite ainda, sem falsas modéstias que “o prémio pouco importa” visto que ” o valor desta curta-metragem já foi comprovado”, pois “a equipa está satisfeita com ele”.

O segundo trabalho vem da UCP e foi feito por Mara Ungureanu. Esse trabalho tem por título “Ghiocel“. A história, segundo mencionou a própria artista, é baseada numa história real que ocorreu na Roménia dos anos 70. Nela, o público acompanha uma jovem estudante que acabou finalmente o seu semestre e com excelente desempenho. A mesma apressa-se ansiosamente para voltar para casa, onde lhe espera a sua mãe, doente. O objetivo da peça é ” envolver o público num sentimento que, infelizmente, toca a toda a gente: a perda de um ente próximo”, clarificou Mara ao JPN. Tentou relatar a história de forma poética, “realçando a necessidade de pensar nas memórias boas, sem se deixar sucumbir na tristeza”, para que a audiência “se reveja na narrativa, de uma forma positiva”.

Foi um “processo moroso e cansativo”, que deu “voltas e voltas”, pois “parecia que a abordagem do tema tinha sempre margem para se tornar ainda mais sensível”. O trabalho reúne ainda um carga pessoal enorme, uma vez que Mara se inspirou também na perda sentida pela sua própria mãe, cuja história inspirou esta peça. “Não queria ferir susceptibilidades, mas tinha de manter o interesse cinematográfico e às vezes estes dois objectivos entravam em conflito”, confessou Mara Ungureanu. De uma forma geral, está “orgulhosa e satisfeita com o trabalho” e afirma-se acima de tudo honrada por ter sido nomeada para os prémios Sophia.

Experimental

Na última categoria nenhum dos trabalhos é originário do Porto. Assim, a luta pelo prémio ficará em disputa entre cinco trabalhos diferentes. Por Lisboa, estará o trabalho da ULHT, “Afrodite”, o da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) intitulado “Model Home” e o da ETIC, “Ossos”. Para terminar a lista, há ainda finalistas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) com “Alone” e da sucursal da ETIC no Algarve, com “It Was Lucid”.