Desde Novembro de 2004 a adesão a movimentos de extrema-direita cresceu em Portugal na ordem dos 400%. A maioria dos seguidores são jovens com menos de 21 anos.

Para o sociólogo António Pedro Pombo, as explicações prendem-se com a “crise económica e social” que se “agudiza”. “Há todo um conjunto de frustrações que são sentidas em particular pelos mais jovens: no que toca ao acesso ao emprego, ao sistema de ensino, à ausência de respostas especiais para problemas específicos que afectam a juventude”, defende.

António Pedro Pombo considera também que no plano externo “temos que contextualizar essa situação”: “noutros países a tendência [de jovens aderirem a grupos de extrema-direita] é idêntica – se não mais acentuada – basta ver o que se passa em França”, ilustra.

“Nas últimas eleições [francesas], o fenómeno de crescimento da extrema-direita foi acentuado. Suponho que o processo de integração europeia não está a ser conduzido da melhor forma, o receio da diluição das identidades nacionais começa a vingar e suponho que alguns jovens, fruto de alguma desinformação ao nível das políticas europeias, serão facilmente arregimentados por esses grupos de extrema-direita numa tentativa de preservação de identidade nacional, de uma certa ‘portugalidade’, seja lá o que isso for, mas a ausência de referências também favorece a adesão a causas por vezes difusas e de uma ideologia um pouco violenta, mas que é atractiva para certos grupos”, elabora o sociólogo.

O sociólogo João Teixeira Lopes defende que “a maior parte dessas situações está ligada à questão da chamada “geração bloqueada”. “Isto é uma situação em que aos jovens lhes resta apenas uma carreira de precaridade, estatutos intermitentes, provisórios e muito frágeis em que não há, de forma alguma, uma ideia de emprego certo, de estabilidade, em que não há possibilidade de se emanciparem da casa dos pais, de terem uma vida própria, de poderem viver com alguém do ponto de vista afectivo”, explica. “Todo esse bloquear desta geração conduz a sentimentos de profunda frustração, que nos casos em que se liga à exclusão social mais extrema, pode degenerar em movimentos deste tipo”.

Teixeira Lopes acredita que muitos dos jovens que aderem a grupos de extrema-direita não são “skinheads” não têm uma “ideologia nazi ou fascista”. “Muitas vezes não é consciente”. “É um acto de raiva difusa, de violência e não tem uma fabricação ideológica”, sustenta.

Pedro Pombo alega que para travar o aumento de seguidores de movimentos extremistas há que trabalhar “ao nível estrutural das sociedades”. “Passa por políticas de promoção do emprego para jovens, do incremento de respostas sociais, de introduzir melhorias no sistema de ensino que combatam o abandono e o insucesso escolar”, elabora.

O sociólogo João Teixeira Lopes não acredita que “[haja] verdadeiramente um recrudescimento da extrema-direita em Portugal nem dos “skinheads”. “Há por vezes momentos mais vivíveis do ponto de vista mediático que nos podem causar essa impressão, mas não há dados concretos que nos indiquem que existe uma onda de extrema-direita ou violência ‘skinhead’”, disse ao JPN.

“Há evidentemente alguns líderes desses movimentos que se aproveitam da situação desses jovens para o enquadramento ideológico. Mas da parte dos jovens é muito mais a situação social que provoca a raiva e violência do que qualquer engajamento ideológico intencional”, defende.

“Promover interculturalidade” para travar extremistas

Teixeira Lopes acredita que “promover a interculturalidade é o passo fundamental” para travar movimentos extremistas. O sociólogo também considera que “os mass media têm uma uma responsabilidade cívica crucial, o exemplo é o arrastão de carcavelos”. E acrescenta: “Hoje a maior parte dos portugueses, apesar da Adriana Adringa ter feito um documentário muito claro, ainda acredita que houve um arrastão. No entanto foi um sector da PSP que causou alarmismo. Fez-se um desmentido, mas o desmentido nunca tem tanta força como a notícia”.

No dia 18 de Junho manifestantes de extrema-direita, nomeadamente a Frente Nacional e alguns “skinheads”, protestaram na Baixa de Lisboa contra a criminalidade. A manifestação surgiu na sequência de o alegado arrastão da Praia de Carcavelos.

No Partido Nacional Renovador (PNR) há pelo menos 15 mil eleitores. Segundo declarações de Mário Machado, líder da Frente Nacional, ao Correio da Manhã, o objectivo é chegar aos 50 mil e eleger um deputado.

Teixeira Lopes acredita que não chegue acontecer. “O PNR não tem tido apoio social praticamente nenhum”, afirmou ao JPN. Mas salienta “as situações de pobreza, exclusão e precaridade levam ao aumento da extrema-direita”. E ilustra: “Foi exactamente o que aconteceu em França. Pessoas que votavam em partidos de esquerda votaram na frente nacional de Le Pein por causa da situação de desemprego e exclusão”.
“Se quisermos combater a violência xenófoba devemos actuar na prevenção social, no Estado social e em políticas sociais inclusivas, afirma.

Gina Macedo
Foto: DR