A cópia ilegal de livros técnicos e literários causa 60 milhões de euros de prejuízo por ano ao setor livreiro português. O dado é de um estudo encomendado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) ao Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE) sobre o impacto económico da pirataria no setor. “Tínhamos uma previsão inicial de cerca de 40 milhões de euros de danos económicos, mas esse valor já foi atualizado e é um dos primeiros dados deste estudo”, disse, à Agência Lusa, Miguel Freitas da Costa, secretário-geral da APEL.

Pirataria: uma inevitabilidade?

A discussão sobre a pirataria e os seus prejuízos tem origens remotas. Ricardo F. Diogo, diretor de Produção para a Língua Portuguesa do Projeto Gutenberg, olha para o conceito em sentido lato. “A pirataria sempre existiu. Já desde as Descobertas, pelo menos, que existem piratas”, pelo que, relembra, o conceito não começou com a Internet.

Aliás, a Internet pode ser a alternativa do mercado livreiro para fazer face à crise. “Os piratas informáticos só atuam ilegalmente se os editores não encontrarem estratégias alternativas apelativas, atraentes e inovadoras para promover ainda mais as obras dos seus autores”, defende. O advogado acredita que a Web, se for bem aproveitada, traz aos autores um sem número de possibilidades.

Uma das escritoras que utiliza a Internet para promover e distribuir as suas obras é Patrícia Reis. A jornalista, em dezembro de 2011, apostou na web para lançar “A Nossa Separação”, livro que disponibilizou em ebook de forma gratuita.

Mesmo assim, a escritora é contra a pirataria, potenciada pela crise, mas entende a sua existência. “Sou completamente contra a pirataria, mas também sou completamente contra os livros custarem 30 euros”, confessa. “O livro existe porque o autor o escreve. É o produto principal e, depois, há uma cadeia de intermediários, que vão do editor aos distribuidores e ao próprio livreiro, que vão encaixando sucessivas fatias do bolo que é o livro. O autor é sempre o último a ganhar, quando ganha”, explica. Apesar de tudo, diz, há sempre alternativas, ainda que nem sempre constituam o caminho mais fácil.

Mercado livreiro redesenha-se

A Web vem redefinir as necessidades daqueles que querem vingar no mundo dos livros, diz Ricardo. Para o diretor do Projeto Gutenberg em Portugal, é agora muito mais fácil vender obras, pois quem escreve já não precisa de intermediários.

Assiste-se, também, a um redesenhar do mercado livreiro. Tal como a televisão ocupou o lugar do aparelho de rádio na sala de jantar, Ricardo acredita que a Internet e os “tablets” vêm retirar muitos livros das prateleiras. “O digital é uma inevitabilidade. É o futuro. Sobre isso eu não tenho qualquer dúvida”, concorda Patrícia Reis.

Apesar disso, a escritora não acredita no fim do livro impresso. “Haverá sempre o ‘maluco’ do livro, o ‘maluco’ do disco…aqueles que querem mesmo ter um livro em suporte de papel”, acredita. Já a profissão, essa também não muda com a “supremacia” do digital. “Seja em papel, seja em digital, com dois empregos, com três ou sem emprego nenhum, nós vamos sempre contar histórias”, finaliza.