O ciclo de cinema sobre educação que decorre, até ao fim de março, na Casa das Artes, no Porto, exibiu, nesta segunda-feira, “O Enorme Sonho”, de Sebastian Grobler, nomeado para Melhor Filme nos German Film Awards de 2012. A obra acompanha a chegada de Konrad Koch à vila de Braunschweig, na Alemanha, para ser o novo professor de inglês de uma turma de liceu.

No final do século XIX, numa época em que o imperialismo alemão era marcado por rigidez, ordem e disciplina, o professor Koch, vindo do sistema de ensino britânico, tenta aplicar os seus métodos numa turma onde os preconceitos contra “os tomadores de chá” lhe trazem certas dificuldades.

Através de um novo desporto, até então desconhecido no império alemão – o “football”-, Koch consegue, a pouco e pouco, aproximar-se dos seus alunos e fazer com que aceitem aprender o inglês. Os métodos do professor acabam, no entanto, por ser travados pelo corpo docente do colégio, que é da opinião que nem a língua, nem o desporto praticado pelos “bárbaros” ingleses favorecem a educação dos jovens alemães.

Konrad Koch decide, então, aplicar todos os seus esforços para alterar as perspetivas educacionais dos alemães, levando-os a crer que o futebol não se tratava de uma “doença inglesa” e que poderia gerar nos alunos valores, como espírito de equipa e camaradagem.

Um filme que dá “um prazer contagiante”

Após a exibição do filme, a Casa da Artes deu lugar a Paulo Nogueira, que partilhou a sua opinião sobre o significado d’”O Enorme Sonho“. Tendo já comparecido em várias conferências científicas sobre educação, Paulo Nogueira acredita que este filme foi “um contraponto bem positivo” em comparação ao filme “Elephant”, por ser muito menos analítico ou até “mental”.

Com interesse pelo estudo da filosofia da educação, Paulo Nogueira considera que, neste filme, se vê nascer um herói na figura do professor, professor esse que, apesar de ser visto como “objeto do maior número de injustiças”, nos dá um “prazer contagiante”.

A figura de Konrad Koch acaba por nos passar uma mensagem de “esperança, mudança, transformação, inovação e resistência”, ou seja, os valores que “são pilares da construção da identidade de um professor perante as adversidades”, neste caso, de um regime imperial.

Apesar de a educação ser muito conservadora e militarista, Nogueira considera que conseguimos perceber que “é através da educação que as novidades e as mudanças conseguem triunfar” e formar a resistência e, até, a mudança.

“Uma metáfora extraordinária sobre a luta da democracia contra a ditadura”

Já José Alberto Lemos preferiu não falar de pedagogia. Para o jornalista, o filme foi uma “metáfora extraordinária”, porque demonstra um contraste entre sistemas: um sistema liberal representado por um opressor que veio de um país onde viu novas ideias e que chega a um sistema completamente totalitário.

Para José Alberto Lemos, o futebol é também uma excelente metáfora para caracterizar estas duas culturas. É “talvez o desporto mais democrático que existe”, uma vez que “põe o rico a jogar com o pobre”. O futebol “não discrimina ninguém, nem fisicamente nem socialmente”.

Tendo conseguido construir uma equipa num contexto de profunda discriminação, o professor Koch “conseguiu fazer o chamado team building” e fazer com que o futebol se tornasse um discurso democrático, “de fair play” contra o discurso imperial que, hoje em dia, muitas vezes, “atribuímos a Merkel”, quando a pintamos com o “bigode de Hitler”.