Neste sábado, os portuenses saíram à rua e encheram o auditório da Biblioteca Almeida Garrett, para assistirem a mais uma sessão do “Porto de Encontro“, conduzida pelo jornalista Sérgio Almeida, em jeito de entrevista. A convidada: Lídia Jorge. Houve ainda espaço para leituras, na voz de Ana Celeste Ferreira, da nova obra da escritora – “O Organista” -, e até para interagir com o público.

Lídia Jorge inaugurou a sessão com um clamor à cidade do Porto, “uma cidade com um fulgor intelectual e cultural imenso” que se encontra num momento de especial crescimento, tanto intelectual como cultural, afirma.

Uma carreira que não era para ser

E como todos têm o seu crescimento intelectual e cultural, Lídia Jorge fala do seu. Uma carreira com mais de 35 anos que nunca pensou que tivesse início. A escritora, licenciada em Filologia Românica, sempre gostou de escrever. Escrevia desde pequena, mas nunca esperou chegar a ser publicada.

Na Faculdade ensinavam-lhe a analisar a arte e a literatura de forma processual, desconstruindo técnicas, quase como “carpintaria”, diz. Essa não era a sua forma de ver a literatura, não se via a escrever com toda essa técnica, todos esses processos. A própria literatura que estudavam era, na sua opinião, muito conceptual, longe do que era o mundo real.

No entanto, Lídia Jorge queria “fazer exatamente o contrário”, escrever sobre o que conhece, sobre o que vive, sobre o que é a realidade. Foi apenas no final de um dos seus trabalhos de tradução que decidiu que estava na altura de entregar também o livro que havia escrito. E assim começou o primeiro de 35 longos anos, conta.

Novas gerações literárias de Portugal

Para além da sua carreira, foi questionada sobre as novas gerações e a sua relação com a política e o próprio país. Ao contrário de muitas opiniões que dizem que os escritores de hoje se envolvem menos em questões políticas porque não se interessam, Lídia Jorge referiu apenas que nem sempre é uma questão de desinteresse, mas sim porque “outras pessoas tomaram esse palco”, refere.

E ainda que concorde que hoje em dia a literatura portuguesa se tenha distanciado do que se passa no país, isso nem sempre se deve, de novo, ao desinteresse, mas sim à maior facilidade de chegar lá fora, a um maior “pé no mundo”, afirma.  Apesar de tudo, para si, ambas são formas válidas de fazer literatura, o que interessa é a capacidade de ficcionar. Contudo, o que vem de um português tem um toque de Portugal, “o mundo não é totalmente uno, ainda há gente diferente”, conclui.

Deus, o Homem e a criação

Por entre leituras e conversa chegou a altura de falar d’”O Organista”, o mais recente livro de Lídia Jorge. Uma fábula sobre o cosmos, a criação do Universo e a própria relação entre Deus e os humanos. Mais do que do livro, perceberam-se as visões de Lídia sobre o mundo. Começou por dizer que sentiu “um insulto pela grandeza do cosmos em relação a nós que pensamos o cosmos”, já que não há escala humana para o representar, afirma.

Afinal, “somos um montinho de ossos cobertos por terra”. Mas para a escritora, aí reside a essência humana, na falta de compreensão: “No dia em que percebermos para onde vai e para onde for, nesse dia não temos mais possibilidade de ser gente”.

Para Lídia Jorge, o ser humano não vai aguentar, caso não haja uma força que consigo se pareça e o entenda, até porque por isso “todas as culturas inventam um totalidade com rosto humano”. “Nós somos carentes por uma espécie de consolo”, afirma. E quando questionada sobre a ignorância do ser humano, prontamente responde: “Continuamos ignorantes do que realmente importa, mas é essa dualidade que mantém a humanidade”.

Quanto ao tema delicado que dá ser a este novo livro acredita apenas que são “banalidades de uma banalidade imensa”. Aqui está o que difere o escritor de todas as outras pessoas. Para Lídia Jorge, o escritor não se recalca, “deixamos que a parte irracional seja vista” independentemente de, na vida diária, o ser humano ser educado para o recalcar, afirma.

“O espírito louco, nós recalcamo-lo, mas todos nós temos espírito louco”, o escritor perde o pudor, “encontramos um instrumento estético que permite validar esse espírito”, conclui.

No final, a convidada Maria João Reynaud, professora universitária, ensaísta e ainda uma figura presente na juventude de Lídia Jorge, teve tempo de comentar a obra da autora, tanto como especialista como amiga, admirando-lhe o ritmo de escrita, de publicação e a subversão presente na sua obra e na sua mensagem.