O país encheu-se de caixotes, malas e bagagens de meio milhão de pessoas que disse adeus a África. Meio milhão de pessoas com uma só certeza: a das recordações. O que para muitos foi um regresso, para outros foi o primeiro contacto com Portugal - a Metrópole, como então lhe chamavam.
Estas são as histórias de cada vida, as histórias das memórias que ficaram por contar.

Chamaram-lhes retornados. Com eles, um rótulo: África.

  • E depois da Revolução?

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  • Porque tiveram de partir?

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  • De que cor era África?

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  • Quem são os retornados?

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E DEPOIS DA REVOLUÇÃO?

Fernando lembra-se do calor, das praias, das terras férteis onde caíam as sementes e de onde nascia a fruta.
Fernando Zamith tinha dez anos quando se despediu de Angola.

24 de abril de 1974. Na rádio ouve-se “E Depois do Adeus”. Esta foi a senha, a senha que marcou um novo início, a senha que marcou a saída do Movimento das Forças Armadas para a rua. O início daquela que seria para sempre conhecida como a Revolução dos Cravos.

“E Depois do Adeus” é também a marca de um adeus. Com o fim da ditadura, veio o fim de Portugal como potência colonial.

Dia 25 de abril de 1974 marca o início da despedida, o início do fim de uma vida nas colónias. Assim começa o fenómeno, assim começam a chegar aqueles a quem chamaram de Retornados. E assim chegou Fernando Zamith à metrópole.

Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. As províncias ultramarinas em África de Portugal em 1974 durante o Estado Novo. Em 1961 havia já o desejo de independência por parte de movimentos de libertação das colónias, até 1974 deu-se um confronto armado com as Forças Armadas Portuguesas, a Guerra Colonial.

A frase célebre do então homem forte do regime “Orgulhosamente sós” colocava António de Oliveira Salazar na mente dos portugueses e do chefe de governo em 74, Marcello Caetano. O que se avizinhava ser uma primavera marcelista com a morte de Salazar seria apenas uma réstia de uma modernidade esperançosa, que fugaz e instantânea, não incluía as colónias portuguesas nem a Guerra Colonial.

Enquanto parte do mundo avançava no caminho da democracia, Portugal permanecia num mundo colonial, de ditadores e autoridades, em que a soberania portuguesa em África não devia ser questionada, jamais. Nem a pressão da Organização das Nações Unidas para se formarem países independentes e autónomos em África, conseguiu dissuadir Salazar ou Marcello nos seus mandatos. “Para Angola, rapidamente e em força” era o mote indiscutível. África não se questionava.

A História é só uma, mas as perspetivas são tantas quanto as pessoas que a viveram. A independência das colónias teve também um impacto diferente nas vidas que tocou. Democracia era a palavra-chave.

Augusto estava a estudar em Coimbra quando se deu a revolução. Não nasceu em Moçambique mas tinha três anos quando lá chegou. Desde há muito que dizia que estava para acontecer e que com a democracia viria a descolonização. Assim foi. Para si evitou-se um mal maior mas para Fernando Zamith, abril não trouxe o que prometeu.

Com a independência veio também a entrega das ex-colónias aos movimentos nacionalistas que lutaram até 74 pela sua libertação. Através dos Acordos de Lusaka, o Estado português concedeu à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) o controlo dos territórios moçambicanos. A verdade é que se tratava de um partido de cunho marxista-leninista e esta ligação à esquerda não agradou a todos para o renascimento de Moçambique, já longe do domínio português. Com uma forte resistência anticomunista, Moçambique caiu numa longa e violenta Guerra Civil que durou até 1992.

Em novembro de 1975 já Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, a Guiné e Moçambique eram independentes. Em Angola, o caso não foi diferente. A independência dá-se depois, a 11 novembro de 1975. Com as palavras do almirante Leonel Cardoso em nome do Governo Português: “E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica.

Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se”. Mas, ao contrário de Moçambique, em Angola o poder estava dividido. Com três partidos angolanos na luta pelo controlo - FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) -, Portugal não sabia a quem delegar o poder.

De forma a tentar apaziguar a entrega do poder, assinou-se o Acordo do Alvor, em que Portugal estabeleceu a forma como seria partilhado. Na tentativa de um governo de transição com os três partidos angolanos, Angola caiu numa Guerra Civil que só viu um fim em 2002.
Os processos de descolonização como se deram foram tudo menos pacíficos. Até 1975 estavam ainda nas colónias a maioria dos portugueses que aos poucos regressavam àquilo que deixara de ser a Metrópole para ser apenas Portugal. Este é, para muitos, um caso de desleixo por parte do governo português da época, para outros, nem tanto.

Porque tiveram de partir?

Os tempos mudaram e a vontade já não tinha muito a dizer. Em setembro de 1974 torna-se claro que a maioria dos portugueses em África deixa de ter condições para lá ficar. De um momento para o outro é necessário organização, forças políticas capazes de governar um país que tinha acabado de nascer. Com uma independência conquistada em nome da revolta dos povos, em nome da necessidade de libertação daqueles que eram os seus colonos, a situação dos portugueses em África torna-se ainda mais complicada. De um momento para o outro passa a viver-se em insegurança. E, pela primeira vez, invertem-se os papéis: ser branco deixou de ser uma proteção.

Maria Carmo dos Santos, Angola
Depois da independência de Angola viveu tempos de muita insegurança.

Restava saber: onde estava, então, a proteção? As opiniões dividem-se. Portugal continental estava a passar pela maior mudança desde o início do Estado Novo, um novo mundo, havia muito para fazer em muito pouco tempo. Por outro lado, a maioria dos portugueses em África sentia-se perdida. Muitos, frutos de uma segunda, terceira, ou até quarta geração nascida em África, outros há dez, vinte, trinta anos a viver no calor da terra que os acolheu. Todos tinham algo em comum: era lá que tinham construído uma vida. Casas, carros, empregos, estabelecimentos, uma família, uma educação e, acima de tudo, um estilo de vida. Para José Alberto Pinto, a mágoa dos pais na partida foi óbvia e dificilmente seria invisível..

Para a maioria das pessoas em África, já não havia dúvidas sobre a possibilidade de permanência.

Separaram-se famílias. Muitas mães e filhos voltaram, muitos pais ficaram para tentar reaver o máximo de bens que conseguissem. E se imediatamente depois do 25 de abril há uma certa abertura para a chegada de pessoas de África, quando se começa a ver uma grande movimentação, essa abertura, por parte dos governantes, cessa. Viam-se, assim, aqueles a quem chamaram de retornados, presos em cidades a cada dia mais perigosas, a cada dia mais arrasadas pela guerra.

O mote “Para Angola, rapidamente e em força” tinha-se invertido. A decisão de voltar não era fácil. Para trás deixavam casas, poupanças e amigos. Quanto mais longe do 25 de abril e de 74, mais difícil era sair para Portugal. Por norma, quem veio primeiro foi, também, quem resgatou mais das suas coisas, do que quem veio mais tarde. Da vida que tinham de deixar eram autorizados a trazer cinco contos (25 euros) e 20 quilos de bagagem no avião. E, enquanto alguns trouxeram até carros, outros vieram com a roupa que traziam vestida.

Restava uma liberdade: poder sair de África. Na tentativa de sair de lá o mais depressa possível e com o silêncio de Lisboa, os portugueses em África começaram a organizar uma viagem de regresso que teria o nome de Longa Marcha.

Para o evitar, nasceu então a iniciativa das pontes aéreas. De forma a poder auxiliar os portugueses retidos em África, o sistema político na Metrópole coordenou uma série de viagens de avião a partir do aeroporto de Luanda, com desembarque em Lisboa.

As bases aéreas estavam lotadas, as condições de higiene eram mínimas, os alimentos escasseavam e a situação de emergência tornava-se cada vez mais real. Em Angola, os combates entre os movimentos independentistas tornavam o clima pesado e perigoso para os portugueses. Uma África diferente daquela que conheciam e que, invariavelmente, jamais seria a mesma.

Odette Odette Chrystello e Albuquerque, Angola
Fez a viagem para Portugal sozinha e grávida de 7 meses.
As mulheres grávidas, as crianças e as pessoas feridas ou perseguidas pelos movimentos de libertação tinham prioridade no embarque. O desespero tomava a forma de ações extremas com pessoas a engendrar planos para obterem passagens e lugares nos aviões, mais depressa do que o normal. As pontes aéreas foram uma das tábuas de salvação em África.

A medida necessária e aquela que permitiu ao Estado português conhecer a realidade dos que estavam lá, do outro lado do mundo, com a guerra civil à porta.

Com tudo o que se estava a passar no continente africano, com tudo o que se estava a passar em Portugal continental pós-25 de abril, o que conheciam os portugueses da Metrópole desta realidade?

De que cor era África?

Antes da chegada dos portugueses, os territórios que viriam a ser seus em África já eram povoados. As terras do sol abrasador e do calor traziam uma novidade: a cor de pele de quem os habitava. Uma terra de gente de pele grossa e escura para fazer frente ao calor. E, quando muitos dos portugueses começaram a chegar a África, misturaram-se. Deu-se a miscigenação. Nasceram novas famílias e um novo tom. Ainda assim, nem todas as reações foram a mesmas e a par com novas famílias, uma palavra mais forte ameaçava chegar: racismo. Muitas são as histórias que se contam daquilo que por lá se passava. Enquanto para alguns esta palavra nunca entrou no seu dicionário, para outros era muito evidente. Para Zamith não havia negros nem brancos. Isabela não tem essa perspetiva. Conta a sua história, aquilo por que passou e relembra o paraíso que acredita que não o fosse para todos.

E se o 25 de Abril dita para alguns portugueses, o fim do paraíso em África, o certo é que desde de 1961 a situação já não era favorável. A revolta dos negros contra os brancos sentia-se, mas a desigualdade racial não terminava com as colónias portuguesas.

Quem são os retornados?

Família Neves, Vila Nova de Gaia
Acolheram na sua casa, uma família de portugueses vinda de África.
E dá-se o adeus a África. É necessário regressar a Portugal com aquilo que for possível trazer. Mas, afinal, como é que Portugal recebeu o meio milhão de pessoas que teve de voltar? Maria trabalha em pensões de Lisboa, desde muito nova. Foi saltitando de uma para outra na cidade e hoje restam as histórias de todos os que por lá passaram. O fenómeno dos chamados retornados foi uma realidade a que assistiu de perto.

A família Neves acolheu uma família de portugueses vindos de África, na sua casa em Vila de Gaia na freguesia de Olival. Rosa e Manuel Neves com a filha Idalina recordam esse tempo. Um tempo em que conviveram com portugueses de hábitos e costumes diferentes dos seus. A vida fez com que se tornassem uma família de acolhimento, pelo que África acaba por ter um significado também para eles.

Apesar do nome que lhes deram, nem todos retornavam. Muitas destas pessoas nunca tinham estado na Metrópole, outras tantas apenas de férias. Este Portugal pequenino ao qual chegavam nada tinha a ver com os locais que tinham deixado.


Odette Chrystello e Albuquerque, Angola
Quando chegou a Portugal sentiu-se descriminada.
Maria Carmo dos Santos, Angola
Quando teve de voltar a Portugal, a receção não foi a melhor.
Quando chegaram cá tiveram de se adaptar. Foram espalhados por Portugal inteiro, ficaram em hotéis, pensões, casas de família e até casas de quem os quis acolher. Consigo traziam a ideia de que os outros saberiam da guerra e da instabilidade que se vivia em África, rapidamente descobriram que a ideia que passava deles não coincidia. A história desta partida é contada de forma diferente por cada voz que se faça ouvir.

Ainda hoje se culpam governos e governantes pela forma como tudo se passou. Lembram-se outras descolonizações que ainda hoje se notam.

Este é um assunto que, por agora, vive para lá da História, vive dentro de quem por isto passou.

Odette Chrystello e Albuquerque, Angola
As lembranças e a vida em África nunca são dissociadas do presente.
Da História partem as lembranças, as memórias e as mágoas. África pode ter significado para muitos portugueses o paraíso perdido, mas é incontestável de que a ligação com Portugal jamais se desligará. Meio milhão de portugueses amou um país como se de uma pessoa se tratasse. Como se um coração português ficasse para sempre no calor dos dias de Luanda e de Lourenço Marques.
Os factos poderão um dia ser contados de forma imparcial, quando deixar de haver mágoa sobre África.

Quando África deixar de ser tabu. Quando Portugal conseguir olhar para a sua História sem a presunção de o considerar um tema de discórdia e controvérsia. Haverá sempre dois lados numa história, e neste caso, as memórias são avulsas. Dificilmente haverá uma recordação coletiva sobre o momento em que uma vaga de portugueses chegou a Portugal num período pós-revolução, agitado e incendiário.

Várias histórias e situações se entrecruzaram, desmoronaram e reconstruiram em Portugal.
De uma África perdida no passado colonial, ficam as histórias de vida de muitos portugueses que encontram nas memórias, o seu país. Porque para eles, viajar até África é recordar.

 

2 comentários

Sobre a ideia da exploração colonial e racial expressa na entrevista, parece que aqui se vivia e se vive no melhor dos mundos. Em África havia diferenças sociais, como aqui, mas lá havia solidariedade entre classes sociais, o que aqui já não se verifica igualmente.
Imaginem um banqueiro português a referir-se aos concidadãos pobres, "olha os pobres", e acrescentando nos dias de festa "olha os alegretes".
Portanto, devemos ter cuidado com os argumentos extremados para dar realismo às nossas convicções. É que neste Portugal metropolitano há muita velhacaria hipócrita, e o momento actual acentua tudo isso, a exploração e a concentração da riqueza, os direitos de privilégios, e os que sofrem sobre a quantidade de deveres.
Parece-me que esta coincidência em África era mais atenuada.
Joao Silva
Caro J D,

Muito bem comentado e estou consigo. Se todos em Portugal fossem e agissem como nos o faziamos em Africa, entao este Portugal que chamamos de nosso SERIA MUITO MELHOR !
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