“Não gosto de nenhuma coisa em especial. Gosto mesmo de fazer tudo. Tem mais a ver com o projeto e com as pessoas com quem eu estou, do que propriamente com o género”, é assim que Gonçalo Waddington explica as suas opções de carreira e as suas preferências em termos de projetos.

O ator esteve, esta quarta-feira de manhã, nas instalações da ACE – Escola de Artes para falar com os alunos sobre o seu trabalho e o mais recente espetáculo em que participa: “O Nosso Desporto Preferido”.

Nesta tetralogia, Waddington é ator, encenador e responsável pela escrita da peça. Segundo o próprio, “numa palavra, a peça é sobre linguagem”. Aos estudantes da ACE, o artista lisboeta explicou “O Nosso Desporto Preferido” recorrendo à ciência, literatura, política, tecnologia e religião, para propor uma reflexão sobre a evolução da espécie humana.

O primeiro capítulo do espetáculo, denominado “Presente”, retrata a história de um cientista misantropo que tem como objetivo criar uma espécie universal perfeita, sem que esta tenha necessidades básicas, como comer ou reproduzir-se. Gonçalo Waddington, que começou por salientar que o seu “percurso académico é vergonhoso”, citou diversos autores, obras e teorias que comprovam “que somos uma civilização do tipo zero”, ou seja, completamente rudimentar e com inúmeras potencialidades por explorar.

“Estar no palco já não é suficiente” para Waddington, pelo que surge com naturalidade uma paixão pela escrita, independente do que a crítica lhe aponte. “99% do que as pessoas falam, eu não estou minimamente interessado em ouvir”, afirma.

O ator, que tem estado a dividir a sua vida entre o teatro, cinema e televisão, não gosta de ser considerado um comediante. “Eu estou aqui nesta detalhada explicação e não houve nada de humorista, apesar de haver humor”, declara ao JPN, antes de voltar a frisar: “Não sou humorista, sou ator e de vez em quando faço umas coisas de humor, e isso é diferente”.

Se “o projeto é super interessante, é isso que me move, independentemente de ser comédia ou não”, declara o artista de 38 anos. “O que eu mais faço é teatro, acho que é o que mais me consome a cabeça, no bom sentido. Do cinema, obviamente, gosto, mas não há muito cinema para fazer. Há muita televisão a acontecer, mas TV que eu goste de fazer não há muita”, explica Waddington.

“O canal do estado devia fazer coisas diferentes”

Desafiado a, como membro do panorama cultural nacional, a explanar a sua posição relativamente aos mais recentes sucessos de audiências, Gonçalo vai direto ao assunto: “Eu não gosto, confesso, não gosto. Vejo muita gente inteligente e informada que também vê isso. De repente, uma coisa alimenta a outra. Acho que há um excesso desse tipo de programas. Choca-me ver a RTP a fazer o mesmo género de programas.”

A televisão pública, que transmitiu séries como “Os Contemporâneos”, “O Último a Sair”, ou “Odisseia”, em que Gonçalo Waddington participou, merece reparos do artista: “O canal do estado devia fazer coisas diferentes, não devia concorrer num género de programas em que são pessoas famosas a fazer figuras de estúpido”. Para Gonçalo Waddington, “isso rouba dinheiro a outro género de produções que poderiam acontecer” na RTP.

No final da conversa, o ator declarou que para si “é igual” subir ao palco no Porto, em Lisboa ou no Algarve. Mas vir à cidade Invicta “significa aguentar-se à bomboca e não comer tantas francesinhas”, pois “uma coisa é facto: aqui come-se barato e muito”.

Nos últimos anos, o artista nota uma “grande diferença” no Porto: “Tem muita gente, tem muito teatro a acontecer, porque não é só vir cá fazer teatro, é ver teatro e coisas a acontecerem no Porto. Está com uma vida cultural e uma vida noturna que é obra”.

Antes de terminar, no Palácio do Bolhão, o ator diz estar “sempre a levar, seja inverno ou verão, com ruas cheias de turistas”. “É complicado… Mas pronto, eles que deixem cá o dinheiro que é o que a gente quer”, conclui entre risos.

A segunda parte da tetralogia terá início em setembro de 2017. Depois disso, o terceiro capítulo abordará a história de “cientistas ressabiados”, antes de terminar com um monólogo, na quarta e última parte da mais recente obra de Gonçalo Waddington.

Na próxima sexta-feira, dia 17 de junho, o primeiro dos quatro capítulos de “O Nosso Desporto Preferido”, estreia no Grande Auditório Manoel de Oliveira do Rivoli. A peça tem uma duração aproximada de 1h20 e os bilhetes custam 7,50 euros.

Artigo editado por Sara Gerivaz