Apesar dos bilhetes para o Fest FWD terem esgotado no dia anterior, às 21h30 desta quinta-feira o Coliseu do Porto ainda estava a meio da capacidade. Quem entrava ia deambulando pelo recinto, a avaliar o ambiente e o local de onde poderiam apreciar melhor os concertos.

Foi neste ambiente, ainda tímido e parado, que Fernando Alvim abriu o evento. Com o seu típico à vontade, o humorista apresentou a primeira banda da noite a subir ao palco, vencedora do concurso “Fest FWD” e digna representante de um projeto musical português diferente e de qualidade.

Lodo e WACK, duas energias diferentes

Os Lodo, de Tomar, tiveram a responsabilidade de abrir o concerto e de soltar um público ainda reticente, espalhado aqui e ali pelo interior da sala. Uma guitarra e bateria fortes tentavam marcar o ritmo impactante, que iria caracterizar o resto da atuação.

“Fuga” não deixa dúvidas. É rock instrumental. Bernardo Ferreira, baixista da banda, deixou o apelo: “Vamos precisar da vossa ajuda”. E aos poucos, a audiência deixa-se envolver pelo som forte e carregado da guitarra.

Num ambiente obscuro e cinzento, mistura-se o estilo psicadélico com o eletrónico. Várias pessoas fecham os olhos e abanam ligeiramente o corpo ao sentir o ritmo mais suave das últimas músicas.

Entre a atuação dos Lodo e a dos WACK, Alvim sobiu mais uma vez ao palco, desta feita para apresentar um dos projetos associados à Ageas Seguros, organizadora do evento: o ColorADD, um sistema de identificação de cores para daltónicos. O humorista pergunta se há alguém daltónico entre a plateia e chama quem se acusa ao palco. “Escolher a roupa” foi a principal dificuldade apontada por este jovem, se bem que o azul do clube do Porto é o único que não confunde.

É com este espírito mais divertido e solto que os WACK asseguram um momento de boas energias, cruzando o rap com o funk, soul e jazz.

O vocalista João “Dikas” Paiva mexe-se vigorosamente pelo palco, apoderando-se dele enquanto pede à plateia para sentir a música da mesma forma que ele a está viver no momento. E o seu pedido de imediato torna-se uma ordem, com todo o público a pôr as mãos no ar.

Algumas pessoas estão sentadas no chão, dando um aspeto festivaleiro ao concerto. “Dias de Sol” traduziu por completo o que esta noite representou para a banda, que atuou pela primeira vez no Coliseu. Foi, sem dúvida, “Hell of a day” para estes rapazes, que fizeram questão de se mostrar extremamente agradecidos por estar a pisar aquele palco.

Os casais também tiveram direito a um momento mais romântico com “Cartas de Amor”, que com as suas rimas diretas conquistou os mais apaixonados.

É caso para dizer que “Once you go WACK”, já não há como voltar atrás. E foi com esta canção que a banda encerrou a sua performance, demonstrando que ser WACK é precisamente quebrar as expectativas e provar ser muito mais do que se aparenta.

Moderno e tradicional unidos

O presidente do Ageas Seguros,  Steven Braekeveldt, protagoniza um momento caricato quando é chamado ao palco pelo apresentador de serviço.

Grita alto e bom som que “as cervejas belgas são boas”, mas “os portugueses são melhores”.

Neste compasso de espera, os fãs de Jimmy P, maioritariamente jovens, mostram-se agitados enquanto se aproximam da linha da frente.

“Estamos em casa” é o grito de apresentação deste rapper, que por ter vivido tanto tempo na Invicta, canta para os portuenses como se de seus amigos próximos se tratassem.

“Esta é a nossa cidade”, e é por isso que Jimmy faz o concerto “Valer A Pena”. O público pula e grita efusivamente sem que seja necessário o artista pedir. “On Fire”, “Storytellers”, “Não Tás a Ver”, “Nas Nuvens” e “Amigos e Amantes” são alguns dos êxitos do artista que se fizeram ouvir ontem no Coliseu.

“Entre Estrelas” impeliu o público a abrandar o ritmo e a sentir o lado mais íntimo e pessoal de Jimmy, que abandona por momentos o artista mais urbano que é para cantar sobre o que é perder alguém.

O momento alto da noite foi protagonizado durante uma destas atuações, quando o “rapper” português chamou ao palco Steven. O presidente da Ageas soltou o seu lado mais artístico e cantou “Não Tás a Ver” com Jimmy P, incentivando a plateia a fazer o mesmo. O músico sabe como entreter, acima de tudo, e este concerto foi mais uma vez prova disso.

Um certo alvoroço faz-se sentir com o fim da atuação do rapper. Os que estavam sentados começam aos poucos a levantar-se e a aproximar-se do palco, como se algo extraordinário estivesse prestes a acontecer. Aconteceu Diabo na Cruz. Com o rock tradicional que os distingue, demonstraram ser uma das principais razões pelas quais os bilhetes para este evento esgotaram.

Este rock’n’roll misturado com instrumentos tradicionais demonstra que é possível unir dois géneros musicais completamente diferentes. A aparição de Jorge Cruz, o vocalista irreverente da banda, exaltou o espírito patriótico ao ponto de se ver alguém entre o público erguer um xaile tipicamente português.

A escolha do alinhamento roçou a perfeição, com a banda a tocar as músicas mais conhecidas (e preferidas) do público. “Os Loucos Estão Certos”, “Dona Ligeirinha”e “Luzia” juntaram-se aos mais recentes “Vida de Estrada” e “Moça Esquiva”.

Vários grupos de amigos entram numa espécie de frenesim com o ritmo invulgar e poderoso da bateria de João Pinheiro misturada com o som especial da viola braguesa (na qual Sérgio Pires arrasou). Cantam sem pudor e a plenos pulmões, incentivados pela energia transmitida por Jorge Cruz, que ora pára no meio do palco para mostrar os seus dotes de dançarino, ora interage com os restantes membros da banda, numa corrida frenética.

De um momento para o outro, o Coliseu do Porto presencia no seu interior um comboio gigante, no qual todos participam sem exceção. O ambiente formal deste recinto contrasta com o espírito popular vivido pela plateia

O concerto não podia terminar de forma mais intensa, com o vocalista a subir para cima da bateria, unindo o som rebelde da sua guitarra com a batida potente de João Pinheiro. Levanta os braços e os Diabo na Cruz recebem os aplausos mais fortes e barulhentos da noite.

Está feita a despedida da estrada, e posto final a um ciclo de três anos, como antes do concerto Jorge Cruz confessou ao JPN.

Fernando Alvim encerra o Fest FWD com uma foto coletiva de todos estes artistas que fizeram da noite de sexta-feira uma experiência musical no mínimo interessante, reunindo estilos tão diferentes mas que resultaram no conjunto.

Artigo revisto por Filipa Silva