O Portugal Fashion contribuiu para a mudança do paradigma da indústria têxtil em Portugal e a plataforma Bloom tem possibilitado uma crescente democratização de acesso à moda pelos novos criadores portugueses.

Falamos de homens e mulheres de moda, homens e mulheres de negócios a quem têm sido fornecidas ferramentas, que permitem usar a sua criatividade intrínseca e competências ao nível da gestão, porque a moda também é um negócio, para conseguirem vingar num setor que é competitivo.

A plataforma, lançada em outubro de 2010, por altura do 15º aniversário do Portugal Fashion, tem-se revelado um sucesso em termos de originalidade de propostas de moda, de público interessado e de atenção mediática e prova disso é a transição para a passarela principal de nomes como Estelita Mendonça, Daniela Barros ou Hugo Costa.

E este ano não foi exceção: Beatriz Bettencourt, Eduardo Amorim, Maria Kobrock, Pedro Neto, Inês Torcato, David Catalán, Tiago Silva e Joana Cardinal apresentaram, na passada quinta-feira, as suas mais recentes coleções, no espaço Bloom, no Palácio dos CTT, localizado na cidade do Porto.

Eduardo Amorim

Eduardo Amorim | Foto: Bruna Sousa e César Castro

Para muitos destes criadores, a passagem para a passarela principal, que desejam alcançar a curto ou a longo prazo, corresponde a responsabilidades acrescidas e a novos desafios. “Primeiro tenho de criar uma identidade mais consistente. Tudo leva o seu tempo”, explica Eduardo Amorim, licenciado em Design de Moda pela ESAD e vencedor do concurso de novos criadores da plataforma Bloom ao JPN.

O nascimento da Plataforma Bloom

A plataforma tem servido como alavanca de talentos emergentes, mas, ao mesmo tempo, tem facilitado, em muitos casos, a integração de novos designers no mercado de trabalho, conferindo-lhes a visibilidade desejada.

Para além disso, o Bloom tem completado eventuais vacuidades que as empresas, como a do setor têxtil ou do calçado, possam ter ao nível do design. “A plataforma é ótima para as pessoas perceberem o nosso estilo, a nossa identidade, a nossa linguagem, que vai evoluindo ao longo do tempo”, afiança a também licenciada em Design de Moda pela ESAD, Beatriz Bettencourt.

Por ser um projeto da responsabilidade da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) e desenvolvido em parceria com a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), o Bloom, como parte integrante do Portugal Fahion, é financiado pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), o que permite que os jovens criadores disponham de todos os recursos – manequins, passarela, etc., – sem nenhum custo.

Eduardo Amorim garante que, por não se ter de preocupar com essas questões, consegue focar-se mais “nas próprias roupas”.

Pela primeira vez, e contrariando aquilo que se tem feito ao longo dos últimos anos, o evento inovou ao apresentar um dia inteiro e um local exclusivo para a plataforma de novos talentos, mantendo, como tem sido habitual, a lógica de acesso livre ao público.

Esta alteração agradou aos novos criadores que deixaram de partilhar os seus coordenados no mesmo dia reservado aos designers de moda mais afamados. “Para todos os efeitos, nós somos o futuro da moda portuguesa e acho incrível que nos dediquem um dia, que concentrem toda a gente para ver o nosso trabalho e nos deem oportunidade de brilhar, sem ter outras pessoas no calendário”, considera a jovem luso-alemã Maria Kobrock, que se formou em Design de Moda e Modelação na ESMOD Berlin.

Pedro Neto

Pedro Neto | Foto: Bruna Sousa e César Castro

Também Pedro Neto, que já apresentou o seu trabalho no “showroom” International Fashion Showcase da London Fashion Week, considera que a novidade teve repercussão na forma como a imprensa se relaciona com os criadores menos conhecidos. “A imprensa está concentrada. Nas edições anteriores, temos um desfile em cima [na plataforma] principal, depois, a seguir, é o Bloom [em baixo], mas a maior parte das pessoas nem sequer descem. Não descem, é a realidade, não descem.”

Processo de trabalho

Certo é que o percurso destes jovens designers portugueses pode definir-se por um forte sentido de comprometimento com o Portugal Fashion e por longas horas de dedicação, desde a ideia até ao projeto final, o que pode estender-se por meses a fio.

O processo de trabalho assenta numa heterogeneidade de etapas e parte, regra geral, de uma inspiração que bafeja o criador. Quando foi convidada para a 39ª edição do Portugal Fashion, Maria Kobrock encontrava-se a ler uns escritos do escritor francês Albert Camus, que serviram de temática inspiracional para a coleção que apresentou.

Também Pedro Neto recorre, como sempre, às obras de arte para estimular a sua capacidade criativa e, por conseguinte, desenvolver um conceito que o conduza às suas conceções.

No fundo, trata-se de um “um conceito que vai sendo desenvolvido” e “que requer algumas semanas de amadurecimento”, explica Beatriz Bettencourt.

UN T

UN T | Foto: Bruna Sousa e César Castro

No caso da dupla da UN T, Joana Cardinal e Tiago Silva, que estudaram na Modatex Porto, o trabalho é desenvolvido por ambos. “O projeto em si, o trabalho entre os dois, é muito cúmplice. A dupla funciona incrivelmente porque os meus aspetos negativos são melhorados pelos aspetos positivos da Joana”, explica Tiago.

A partir daí, varia de criador para criador. Se uns começam por idealizar as silhuetas, o tipo de forma das peças ou as cores, outros preocupam-se com os detalhes, os desenhos das peças em si, os tecidos ou os materiais.

Inspirações e referências

Como as conceções não nascem do vazio, os novos designers inspiram-se nas mais variadas referências para assim criarem a sua própria moda, como o provam os criadores da UN T.

Embora não nomeiem autores, Tiago afirma que a dupla tem várias referências ao nível internacional, mas também referências nacionais. “Nós gostamos de ver de tudo um pouco. E é daí que a nossa imagem se forma.”

Inês Torcato

Inês Torcato | Foto: Bruna Sousa e César Castro

Já Maria Kobrock e Inês Torcato, jovem designer portuense, revelam-se tendencialmente apreciadoras do trabalho desenvolvido pelos criadores internacionais, como Yohji Yamamoto, Rick Owens ou Ann Demeulemeester.

Eduardo Amorim nomeia Alexandra Moura e Luís Buchinho, presenças assíduas no Portugal Fashion, como criadores de referência nacional ou internacionalmente Margiela porque gosta do “reaproveitamento de peças” que o criador faz. Beatriz refere ter várias ao nível internacional, mas não só. “Eu, por exemplo, gosto muito do nosso Filipe Oliveira Batista e o que ele faz na Lacoste. É nacional, mas é internacional ao mesmo tempo.”

Pedro Neto considera, no entanto, que a “moda é cíclica” pelo que, para si, não faz qualquer sentido apontar um designer como referência quando “tanto posso dizer que é um agora e daqui a meio ano dizer ‘não, que horror’, e que é outro. Porque a moda é cíclica.”

Maior dificuldade: colocar o produto em loja

David Catalán

David Catalán | Fotografia: Bruna Sousa e César Castro

O criador de origem espanhola, David Catalán, afirma que o que mais difícil para os novos talentos que arrancam agora no mundo da moda “é arranjar lojas para vender as roupas.”

Por esse motivo, alguns dos designers optam por vender em lojas online ou através das suas redes sociais, como é o caso de Beatriz Bettencourt e Maria Kobrock. Outros, como Eduardo Amorim e a dupla UN T, vendem em lojas de design, como a Scar.id e a THE Design, respetivamente.

Artigo editado por Filipa Silva