Nascido em Caracas, Alberto Barrera Tyszka, autor de “También el corazón es un descuido” lançou, esta quarta-feira, o seu mais recente livro: “Pátria ou Morte”. O romance gira em volta de Miguel Sanabria, médico oncologista e professor universitário recém-reformado, que atravessa uma crise de identidade simultânea à de Venezuela, que se antevê órfã do seu mito, Hugo Chávez.

Em 2005, o autor, em colaboração com a jornalista Cristina Marcano, publicou a primeira biografia documentada do ex-presidente da Venezuela, “Hugo Chávez sin uniforme. Una historia personal”.

Atualmente, Tyszka é colaborador do jornal El País e colunista do jornal El Nacional. Vive, desde há alguns anos, no México.

À semelhança das personagens do seu livro “Pátria ou Morte”, acha que a Venezuela também está dividida perante a herança de Chávez?

Sim, mas a polarização diminuiu depois da sua morte. Chávez era uma personagem muito irritante, com um carisma muito forte e conseguiu manter a divisão. Por outro lado, a crise económica que vivia a Venezuela, depois da sua morte, era e é tão forte, que eliminou o chavismo e anti-chavismo, unindo o povo venezuelano como vítimas da inflação.

A Venezuela continua à procura de si mesma?

Eu creio que sim. É muito boa essa pergunta, porque, no fundo, parte deste processo tem a ver exatamente com essa identidade. A Venezuela é a única sociedade petrolífera da América do Sul, não produz outra coisa a não ser petróleo. Temos a maior reserva petrolífera do mundo e a consciência de um país rico. Nesse sentido, a Venezuela é e não é a América Latina. Todo este processo que temos vivido transformou-nos num outro tipo de país e agora temos que nos reinventar e procurar quem realmente somos.

“Pátria ou Morte” é o quarto romance de Tyszka, mas o primeiro publicado em Portugal, pela Porto Editora. Foto: Beatriz S. Pinto

A sua cidade natal, Caracas, foi a “capital mundial dos homicídios em 2015”. Como foi crescer lá?

Quando eu nasci, o pais não era tão violento. A situação agravou-se nos últimos anos. Eu vivo entre Caracas e o México e, entre 2012 a 2014, estive sempre em Caracas. A insegurança cria outro tipo de dinâmica quotidiana. Por exemplo, eu, depois das seis da tarde, não saio. Quase ninguém sai porque é perigoso, obscuro. Eu já não caminho. Antes caminhava muito pelas ruas e agora caminho muito menos. Nós, pessoas de Caracas, já temos um sistema de alerta natural, incorporado: tocamos na carteira, olhamos de forma periférica. Estamos sempre em guarda. E sentimos que estamos a desafiar a estatística. Há muitos sequestros, muitos assassinatos, muitos roubos.

Na semana passada, a CNN foi bloqueada na Venezuela, depois de ter exibido uma investigação sobre uma fraude de passaportes. O que é que condiciona o jornalismo no país?

O jornalismo na Venezuela tem um problema: Chávez criou um projeto de hegemonia comunicacional, em que só pode existir um discurso, um só controlo sobre todos os meios de comunicação. E ele foi bem sucedido nisso. Conseguiu expropriar alguns orgãos de comunicação, proibiu sinais de transmissão e não renovou concessões às estações televisivas independentes. E foi ficando cada vez com mais media. Então, para um jornalista, o mais difícil é que já não tem espaço. Todos os jornalistas venezuelanos independentes e que querem fazer investigação já foram embora. O panorama mais trágico e terrível é a autocensura, é um método de controlo muito mais eficaz que a censura.

O que pensa sobre a intervenção americana na política venezuelana?

O Obama também o fazia. Os Estados Unidos, em geral, sempre tiveram uma política muito “desacertada” com a América Latina e sempre intervieram. É certo que a realidade venezuelana está numa hora má, mas não sei até que ponto, uma personagem como o Trump, que tem uma relação muito problemática com a América Latina (com os imigrantes e o México), pode ajudar o povo venezuelano. Não sei se convém à oposição venezuelana associar-se a uma personagem como o Trump.

Que futuro vê para a Venezuela?

Gostaria de ver futuro. Por agora não vejo quase nenhum. A situação está muito complicada: atravessamos uma crise económica vertiginosa, a maior da sua história, e uma crise política que está congelada. Essa combinação é muito forte. Não há esperança. Mas a esperança é grátis e irracional. E isso é bom.

Artigo editado por Rita Neves Costa