Karla Suárez, lançou, esta quarta-feira, o seu mais recente livro: “Um lugar chamado Angola”. É o primeiro romance que narra o impacto da participação de Cuba na guerra em Angola, ao lado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Além de engenheira eletrónica, a autora cubana, foi considerada uma dos 39 jovens escritores mais representativos da América Latina, em 2007.

Depois de Roma e Paris, Karla vive atualmente em Lisboa e coordena o Clube de Leitura no Instituto Cervantes, na capital portuguesa.

“Um lugar chamado Angola” é um dos primeiros romances sobre a presença cubana em Angola. Foi difícil chegar à documentação sobre o apoio de militares cubanos ao MPLA?

Existem, talvez, mais romances que tratam do tema de Angola. Foi algo muito próximo de nós e, então, muitos cubanos, sobretudo depois da guerra ter terminado, publicaram contos e outras coisas. Mas neste romance em específico, o tema é só a guerra. Tanto a personagem, como eu, tentamos reconstruir tudo o que aconteceu durante todos aqueles anos. Foi difícil, sim, porque em Cuba, depois da guerra ter acabado, nos anos 90, não se falou mais nisso.

UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola

MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola

O país estava num período muito difícil de crise económica e foi como se a guerra não tivesse acontecido. Para mim, foi fundamental vir morar para Lisboa, porque encontrei muitos portugueses e angolanos que estiveram na guerra e isso deu-me uma visão mais completa. Li livros escritos por pessoas da UNITA e do MPLA, e foi essencial saber como eram vistos os cubanos por uns e outros. Passei quatro anos a ler sobre o assunto e certo dia decidi que tinha mesmo de começar a escrever.

Como se cria uma história sobre um “filho de um herói” do século passado?

Foi complicado porque não é o meu caso. Era importante que a personagem fosse um homem, porque em Cuba o discurso machista é muito dominante. A beleza de escrever é que tens de vestir a roupa das personagens e pôr-te na situação deles: chorar ou não chorar com eles. O meu personagem tem um problema, porque ele é um homem e disseram-lhe desde pequeno que “os homens não choram”. Foi complicado, às vezes, porque eu e ele tínhamos muitas coisas que não eram em comum.

Como nasceu o interesse pelo processo de descolonização portuguesa em Angola? A sua mudança para Lisboa acrescentou curiosidade ao tema?

Eu já tinha a ideia do romance. No meu primeiro livro, um dos personagens foi para a guerra, nos anos 80, e há um capítulo dedicado à guerra de Angola. A guerra era um tema muito forte na vida das pessoas que viveram naquele período e queria perceber mais a fundo o que é que aconteceu. Na altura, não era como agora, com as redes sociais. Lá, as notícias chegavam com meses de atraso e só muito tempo depois se sabia se era verdade ou mentira. Aliás, uma das razões que me fez vir para Lisboa foi a ideia deste romance. A minha personagem mora em Lisboa e eu encontrei o meu cantinho em Lisboa, que para mim é uma Havana.

O livro “Um lugar chamado Angola” é o primeiro romance sobre a presença cubana em Angola. Foto: Beatriz S. Pinto


Depois de Roma e Paris, porquê Lisboa? E porque não Cuba?

Cuba não, por agora não me interessa voltar a viver lá. Na altura estava em Paris e adorava a cidade, mas queria sair. Na primeira vez que lancei um romance em Portugal, percebi que Lisboa tem magia, tem alguma coisa. Não tem nada a ver fisicamente, mas lembra-me Havana. Não é uma grandíssima cidade, mas é amável, é fácil de viver na vossa capital. Tem rio e tem mar, come-se bem e a gente é muito simpática.

Na passada segunda-feira, faleceu o ex-embaixador de Portugal em Cuba, José Fernandes Fafe, que defendia aligeirar-se as sanções e aliviar o bloqueio norte-americano a Cuba. Está na hora de terminar esse bloqueio?

Para mim, sim. O bloqueio é uma coisa absurda. Está vigente há muitos anos e não dá em nada. A origem do bloqueio foi para pressionar o governo a fazer coisas, mas no final não deu em nada. O ex-presidente Obama dizia que o bloqueio é absurdo. Só traz mais problemas para a gente e no final de todas as guerras políticas entre governos, quem sofre as consequências são as pessoas normais. O bloqueio asfixia as pessoas que vivem em Cuba e acaba por não ter resultado. Está na hora.

Para si, o que representa a morte “del Comandante”?

Era já uma coisa que se esperava. Fidel, velho, era já uma figura histórica, já não estava muito presente na política cubana. Falava e escrevia, sobretudo, por isso não fiquei muito surpreendida. Tal como o livro de Gabriel García Márquez, “Crónica de uma Morte Anunciada”, já era esperado. Não acho que vá mudar algo em Cuba por causa da sua morte. As mudanças tinham começado antes disso, quando Fidel passou a pasta a Raúl Castro. A morte de Fidel foi “o fim de um fim” de um período.

Pertence a um grupo de 36 autoras cubanas residentes e não residentes em Cuba que escrevem uma obra contra a violência na mulher: “Sombras nada más”, de Ediciones Unión. Ainda falta percorrer um longo percurso para travar a violência de género em Cuba?

Sim. Como dizia anteriormente, os cubanos são muito machistas. E é um conceito que também está presente nas mulheres. O machismo também é um problema de mulheres, quando ensinam os seus filhos a perpetuarem esse comportamento desigual. Eu acho que esse livro é importante porque a literatura não muda o mundo, mas chama a atenção certos problemas e eles começam a ser anormais. O problema é que ás vezes o abuso contra as mulheres é considerado “normal”, “estamos todos habituados”. É necessário desabituar as pessoas a isto para começarem a reagir.  Nesta matéria, em Cuba, ainda há muito para fazer.

Qual o futuro de Cuba?

Isso não sei. Posso dizer a coisas que eu quiser, mas o futuro não sei. Cuba é um país que ainda está a ser construído e já não é o país onde eu cresci. Esse país acabou. Nos anos 90, Cuba sofreu uma reestruturação social, e atravessamos uma grande crise, que se chamou “Período Especial”. Há quem diga que ainda não acabou, não se sabe. Cuba é um país que eu ainda não sei para onde vai. Mas quando lá vou, vejo mudanças e acredito que já não estamos no mesmo ponto.

Artigo editado por Rita Neves Costa