A palestra “Exploring Jupiter and its moons” (Explorando Júpiter e as suas luas) estava marcada para as nove horas desta sexta-feira, no anfiteatro 040 da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Quando o cientista Jared Espley chegou, dez minutos antes, já o anfiteatro estava meio cheio. À hora marcada para começar, quase todas as cadeiras estavam ocupadas com estudantes, professores e curiosos.

Jared Espley é investigador de estudos planetários e tem neste momento em mãos um dos grandes projetos da NASA. “Juno” é a missão que colocou a nave espacial com o mesmo nome na órbita de Júpiter. Scott Bolton, o principal investigador da missão, disse aos média internacionais, em julho passado, que esta foi “a coisa mais difícil que a NASA alguma vez fez”.

Parece ambicioso, mas a verdade é que a equipa de “Juno”, composta por várias centenas de pessoas, conseguiu colocar a nave na órbita do maior planeta do sistema solar, sem atrasos, precisamente cinco anos depois do seu lançamento, e a mais de 260 mil km/h (mais rápido do que qualquer outro objeto construído), na madrugada de 5 de julho do ano passado.

O cientista Jared Espley conversa com alunos da FCUP. Foto: Ana Marta Ferreira

“Juno” tem o nome da deusa grega mulher de Júpiter. A mitologia grega conta que o deus Júpiter desenhou à sua volta um véu de nuvens para esconder o seu mal, e a sua esposa, Juno, foi a única capaz de olhar através das nuvens e revelar a verdadeira natureza do deus do dia e do céu.

E é precisamente isso que vai tentar fazer a nave espacial “Juno”: conhecer Júpiter como nunca ninguém o fez. A nave estima completar 37 órbitas ao planeta gasoso, todas em pontos diferentes, para perceber como é que este se formou e o que compõe o seu interior, a sua atmosfera e o seu campo magnético.

Helena Sant’Ovaia é professora de Geologia, membro do conselho executivo da FCUP e diretora do Instituto Geofísico da Universidade do Porto. Tem acompanhado de perto estas palestras coordenadas entre a faculdade e a Embaixada dos Estados Unidos da América. “A embaixada contacta-nos quando tem ‘em trânsito’ algum speaker, que são geralmente ligados ao espaço, e nós nunca recusamos, recebemo-los na Faculdade de Ciências com muito gosto porque é uma mais valia para nós”, explica.

Conselhos? “Sim, tenho, ainda bem que perguntas!”

Quando questionada sobre a adesão massiva dos alunos à palestra de Jared Espley, a professora não se mostra surpreendida: “Temos sempre muita gente, e de todas as áreas. Já nos aconteceu, com o astronauta Scott Parazynski, enchermos o nosso maior auditório, com 270 lugares, e termos de transmitir em vídeo para o auditório do lado”.

Espley cumprimentou a plateia “multidisciplinar” — nas palavras de Helena Sant’Ovaia — da FCUP com um “olá” (no que disse ser o seu melhor português) e avisou que ia começar a contar uma história. Sem infantilizar a narrativa, mas no que mais tarde disse ser um “esforço para simplificar o discurso mais técnico”, contou mesmo uma história: a da formação do Universo, e mais concretamente a de Júpiter e das suas quatro luas: Io, Europa, Ganímedes e Calisto.

Durante uma hora e sempre bem humorado, Jared Espley falou dos pormenores de “Juno”: o que procura, o que encontrou quando chegou e como é que os resultados da missão podem ajudar a perceber a origem dos restantes planetas. Mas, para além de Júpiter, a NASA prevê explorar nos próximos anos, duas das luas de Júpiter: Europa e Ganímedes.

O investigador falou de “Clipper”, a missão já aprovada para lançar uma nave em 2020 para Europa, onde os cientistas acreditam haver oceanos profundos de água líquida e, por isso, a possibilidade de vida; e “JUICE”, em conjunto com a ESA (a Agência Espacial Europeia), que se prevê que parta para Ganímedes em 2022.

A plateia ouviu atentamente a palestra do investigador Jared Espley. Foto: Ana Marta Ferreira

Espley também falou em pormenor sobre a “JunoCam”, uma forma de o público (sejam cientistas, astrónomos amadores, estudantes ou apenas entusiastas) “interagirem” com a nave espacial. As pessoas podem enviar as suas imagens telescópicas e dados de Júpiter para ajudar a equipa a planear a missão ou votar no que a Juno vai fotografar a seguir.

No final da palestra, o cientista licenciado em Astrofísica pela Universidade da Virgínia, mestre e doutorado em Física pela Universidade de Rice, no Texas e atual investigador no Laboratório de Magnetoesferas Planetárias, no Centro Goddard da NASA, respondeu a todas as perguntas da plateia. Professores e alunos questionaram Espley com animação, sobre aspetos técnicos de “Juno, “Clipper” e “JUICE”, sobre aspetos mais filosóficos das descobertas da missão a Júpiter e ainda “se tem algum conselho para os jovens estudantes da área”.

A resposta à última questão foi imediata e veio entre sorrisos: “Sim, tenho, ainda bem que perguntas!”. Jared Espley apresentou a sua equipa na missão “Juno”, através do slideshow, e aconselhou os estudantes a “identificarem e aperfeiçoarem as suas capacidades, porque, até na NASA, há lugar para as mais variadas áreas”.

“Juno, welcome to Jupiter”

No final, Espley falou com o JPN sobre a construção de uma missão da envergadura de “Juno”, sobre a “JunoCam” e ainda sobre Portugal e os alunos portugueses.”É a minha primeira vez em Portugal e estou muito admirado com a capacidade dos alunos em ouvirem uma palestra inteira em inglês e por fazerem perguntas tão pertinentes”, revelou o investigador.

Sobre “Juno”, o investigador conta que a equipa tem várias centenas de pessoas e que um projeto deste género demora, em média, “uma década a preparar, desde o momento em que se começa a escrever até ao momento em que a nave é lançada”. Espley acha que envolver o público comum na exploração espacial, como acontece com a “JunoCam”, é “muito importante, porque é divertido e didático e, no final de contas, também são os impostos das pessoas que pagam estas missões”.

Jared Espley colocou uma nave espacial em Júpiter no ano passado. Foto: Ana Marta Ferreira

“Juno” é considerada por vários especialistas um dos maiores feitos da NASA nos últimos anos, e Jared admite que o momento em que se ouviu “Juno, welcome to Jupiter” (“Juno, bem-vinda a Júpiter”) foi muito gratificante. “Ficamos mesmo muito contentes e sentimos que estamos no centro [do paradigma da investigação atual], mas também é algo que nos deixa humildes, porque nos lembramos de todo o interesse que existe por pessoas de todo o mundo, nestas questões que, na verdade, são apenas o nosso trabalho. Olha este auditório cheio, por exemplo!”, disse o cientista, visivelmente satisfeito.

“Exploring Jupiter and its moons”, de Jared Espley, foi mais uma das palestras que a FCUP organizou, financiada pela Embaixada dos Estados Unidos da América. Esta parceria já trouxe aos anfiteatros da Faculdade de Ciências várias pessoas ligadas à astronomia, como Bobak Ferdowsi, um dos cientistas responsáveis pela missão “Curiosity”, Alice Bowman, responsável operacional da missão New Horizons, e o astronauta Scott Parazynski.

Artigo editado por Rita Neves Costa