“As águas podem estar serenas, mas não sabemos o que pode estar por baixo delas.” Jorge  Manuel Gouveia é o atual diretor da APOIAR — Associação de Apoio aos Ex-combatentes Vítimas do Stress de Guerra —  e é um ex-combatente no Ultramar. Partiu para a Guiné a 4 de fevereiro de 1967 e voltou a 4 de abril de 1969, embora para ele a guerra não tenha acabado nesse dia. Prolongou-se até hoje.

“Há uma diferença entre a pessoa que foi e da pessoa que veio”

“Há uma diferença entre a pessoa que foi e da pessoa que veio”. Para ele e para muitos outros. Como todos os ex-combatentes, o presidente da associação diz que há coisas que não se contam nem ao próprio psiquiatra. Muitas das coisas que aconteceram lá, ficaram lá.“Quando esta geração morrer, morrerá também a memória de tudo o que lá se passou.”

E afinal basta isto para explicar tudo: “O stress de guerra é a dificuldade em contar aquilo que se viu e que se fez.” Visto à distância, diz que é como se tivessem colocado uma cassete na cabeça dos homens com a ideia de que tinham de matar. Era uma guerra de guerrilha, ali valia tudo. “Com 20 anos fazíamos tudo para podermos sobreviver. A guerra não tem romantismos.” Um dia vieram embora, alguém lhes disse que a guerra tinha terminado ali. E no entanto, o corpo e a mente já estavam preparados para matar.

A psicóloga Susana Oliveira, que faz terapia com os veteranos da APOIAR, diz que o nome correto da doença é perturbação de stress pós-traumático. “É uma situação rara e muito exigente. Estas pessoas vivem episódios de horror e sentem ameaçada a sua integridade física.” Um trauma revivido uma e outra vez, ao longo de anos.

Ainda hoje, Jorge Gouveia acorda com as memórias da catástrofe. “A nossa mente vê mais do que os nossos olhos. Para mim, a guerra é o momento em que vi um carro que continha cerca de dez homens ser atingido por uma bazucada e explodir. O braço de um ali e a perna de outro aqui. Não sei como conseguiram fazer o funeral, os corpos deviam estar misturados uns com os outros.” Faz-se silêncio na sala. Como é que se esquece isto?

Vítimas da guerra sem nunca terem ido à guerra

Não foram só os ex-combatentes que ficaram afetados com a guerra, também se fala acerca de uma traumatização secundária de que as famílias dos ex-combatentes são vítimas, principalmente as mulheres e os filhos que têm um contacto mais direto com os veteranos.

“Sofri muito, eu e os meus filhos”, diz a Isabel, mulher de um ex-combatente que se encontra atualmente a ser seguida pela associação APOIAR. Antes de o seu marido partir para o Ultramar, Anabela afirma que que era um homem completamente diferente, “há um antes e um depois da guerra.”

Não foram tempos fáceis os que a mulher viveu. “Fui mãe, pai, psicóloga e enfermeira do meu marido, fui o suporte da minha casa durante 20 anos”. Depois da guerra, o companheiro tinha um comportamento muito agressivo, principalmente com os seus filhos “Era um homem muito exigente com ele próprio e com os miúdos”.

“Fui mãe, pai, psicóloga e enfermeira do meu marido, fui o suporte da minha casa durante 20 anos”

Um dos episódios que lhe ficou marcado na cabeça, e que ela ainda relembra com algumas lágrimas, foi quando o seu marido chegou a dar um pontapé ao seu filho, porque este tinha tirado uma nota inferior ao habitual. “Era um bom pai, mas tinha de ser tudo à maneira dele, quando as coisas não corriam como ele queria, tornava-se num homem muito agressivo.”

Anabela não percebeu logo que o marido sofria de stress de guerra. Foi um amigo, também ele ex-combatente, que a alertou para o problema do marido. A mulher acabaria por sofrer os danos colaterais e desenvolveu uma depressão crónica. “Tinha de aguentar aquilo tudo, cheguei mesmo a ter medo de entrar em casa, porque ele às vezes não estava bem e começava a partir tudo”.

Foram 20 anos de sofrimento, sem uma única demonstração de carinho. “À noite, quando ia dormir, ficava o mais afastado dele na cama, às vezes com os pesadelos ele acordava muito sobressaltado.”

As mulheres dos ex-combatentes foram vítimas da guerra sem nunca terem lá estado. Anabela diz que a a associação APOIAR tem sido fundamental na recuperação do seu marido e na dela. “As psicólogas dão ótimas dicas para conseguirmos lidar com as doenças dos nossos maridos, hoje quando ela começa a discutir, já não lhe ligo”.

Anabela não acredita que o stress de guerra possa ter cura, “aquilo vai ser a morte deles”. A guerra não só mudou o marido de Anabela, como também mudou toda a sua vida e a própria Anabela. Hoje, apesar de ainda existirem alguns momentos em que o seu marido se torna mais agressivo, as águas estão mais calmas. E já há dias de paz.

N.d.r. Este artigo foi escrito por estudantes do 1º ano do curso de Ciências da Comunicação e Cultura, da Universidade Lusófona de Lisboa. Trata-se do trabalho final para a cadeira de “Géneros Jornalísticos”, um trabalho iniciado em Lisboa e terminado na redação do JPN, ao abrigo da iniciativa “Alfa Pendular”.