Há desenhos nas paredes e crianças a correr de um lado para o outro. Há gargalhadas, gritos, tudo o que é expectável da infância. Numa parede alguém escreveu a palavra “esperança”, onde os antigos utentes colocam post-its com frases a dar força a quem chega. Estamos na ala de Pediatria do Instituto Português de Oncologia no Porto (IPO) e nem por isso lhe vamos contar uma história triste.

“Nós aqui, não pomos o tónico no coitadinho, pomos o tónico na criança”. Nazaré Martins, educadora de infância no IPO, explica que a função de quem opera num serviço desta natureza é “normalizar” e tornar mais fácil um processo doloroso: “Acabamos por funcionar como uma caixa de bombons para eles”, refere.

São várias as atividades que se realizam nesta ala. Dentro delas, Nazaré destaca a ceia de Natal: “É o ex-libris do serviço”, conta. Por regra, optam sempre por levar um grupo que está bem e um que está menos bem para que “quem está menos bem perceba que pode ficar bem.”

A ceia de Natal tem lugar fora do IPO e é preparada com todo o rigor. A equipa de decoração prepara a casa para aquela noite. “Fazemos uma pequena cerimónia com um presépio oferecido por um menino que vai todos os anos para a ceia de natal, porque tem um simbolismo de que quem partiu e fez parte, continua lá”.

O encontro de verão não se efetua com tanta regularidade. É outra das atividades promovida pela ala pediátrica do IPO, mas para a realizar a instituição fica dependente dos donativos angariados. “São três dias de molho na piscina, normalmente num parque de campismo e procuramos sempre visitar qualquer coisa que possa contribuir para a cultura deles.”

No encontro de verão, nunca se sai em grupo sem antes consultar um médico que possa analisar e decidir se o doente se encontra apto ou não para poder participar.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Acreditar, que realiza voluntariado aos fins de semana, a Operação do Nariz Vermelho vai duas vezes por semana, às segundas e quintas; o Museu dos Transportes e Comunicações faz periodicamente a hora de conto; o Instituto Superior da Maia (ISMAI) que atua com um grupo de música e teatro e a musicoterapia. São estes parceiros do IPO da ala de pediatria que permitem o usufruto de momentos, partilhas de emoções e união.

Apesar deste trabalho externo, internamente têm atividades lúdicas e a uma parte pedagógica. Todos os dias há atividades, “dando sempre prioridade ao que a que criança quer fazer porque nos tratamentos a criança não tem opção.” “Somos aquele grupo que pode proporcionar sempre uma opção de escolha ‘o que queres fazer hoje?’”.

Nazaré Martins acrescenta ainda que a preocupação e o foco do serviço de Pediatria é “Criança, primeiro. Sempre” – são os pormenores do desenvolvimento da criança, física e emocional que visam uma articulação com os médicos e psicólogos.

Em relação aos apoios organizam-se através do trabalho em rede com as escolas, tendo acesso ao diagnóstico da criança, ao qual o medico dá o seu parecer quanto à presença assídua ou ausência temporária na escola.

O professor Gaspar é responsável pelo 1º ciclo e o professsor António responsável pelo 2º, 3º ciclo e secundário. As condições que se reúnem para que estes professores deem aulas depende muito do estado emocional da criança e físico. “A criança pode até se pode mostrar interessada em aprender, mas se fisicamente não conseguir uma vez que se sente cansada, porque vai fazer um procedimento qualquer, quando volta quer descansar para o quarto um bocadinho.”

Ambos garantem que tentam sempre motivar o aluno alertando para a importância e muito de não perder o grupo todo da turma em que esteve inicialmente inserido, “a vida continua para além da doença e das paredes deste hospital, eles vão voltar à escola novamente sendo que se não perderem aquele grupo têm lá referências de amigos ou colegas que vêm desde infância.”

Mas há relações novas que se estabelecem no IPO. O grupo de veteranos nasce dos encontros fora do hospital e é uma equipa de suporte para quem chega ao hospital. São crianças que estiveram internadas e que se dedicam agora a outras crianças. “Ao logo das atividades que iam sendo realizadas íamos crescendo, amadurecendo foi criada uma amizade entre nós. Com o tempo percebemos que gostávamos de contribuir mais com a nossa experiência.”

Quem o diz é Joana Ferreira, ex-doente, que pertence ao grupo de veteranos, é licenciada em psicologia e é um destes casos de cancro infantil que passou pelo hospital. Com 11 anos foi-lhe diagnosticado um osteossarcoma na tíbia esquerda realizando sessões de quimioterapia e tendo sido operada para remoção do tumor e colocação da endoprótese.

Joana continua, 16 anos depois, a ter acompanhamento médico e a ser seguida no hospital anualmente por uma questão de prevenção. “O hospital tem sempre muito cuidado e preocupação para não deixar ‘cair’ ninguém, acompanhando sempre o doente, nuns casos 5 anos após o cancro e noutros casos dez anos de acompanhamento e vigilância.”

Quanto à sua experiência e a forma como lidou com cancro, Joana revela que “se vocês se encontrarem com os veteranos e lhes perguntarem como foi a experiencia da doença, por muito que estejam à espera de ter uma resposta negativa, não é isso que vão ter.” A vida no hospital também pode ser alegre.

O grupo foi fundado oficialmente em 2012, um dos objetivos primordiais foi sentir que era importante criar um livro constituído pelos testemunhos e experiências deles com a doença, em que constasse o diagnóstico de cada um.

Esse livro é para uso exclusivo do serviço e tem como fim prestar apoio a outras crianças e adolescentes na partilha de testemunhos. “O que acontece muita das vezes é que quando um menino novo começa a folhear o livro e vê o mesmo diagnóstico que o seu, quer imediatamente conhecer aquela pessoa.”

No dia 1 de julho comemoram-se 40 anos do IPO. E vai haver uma exposição com fotografias de pessoas que aqui estiveram internadas desde 1977, um por cada ano de serviço.  A ideia é mostrar que existe cancro, sim, mas a vida continua. Como diz Nazaré, “isto não é uma casa da morte, é uma casa da esperança.”

N.d.r. Este artigo foi escrito por estudantes do 1º ano do curso de Ciências da Comunicação e Cultura, da Universidade Lusófona de Lisboa. Trata-se do trabalho final para a cadeira de “Géneros Jornalísticos”, um trabalho iniciado em Lisboa e terminado na redação do JPN, ao abrigo da iniciativa “Alfa Pendular”.