Bon Iver, há que escolher entre o experimental e a guitarra acústica?

“Será que aquelas pessoas conseguem ouvir o que aqui estamos a fazer?”, pergunta Justin Vernon, líder dos Bon Iver,a seguir um avião com o olhar.

Já não vinham a Portugal desde 2012, altura em que o enigmático “22, A Million” ainda estava distante e que Justin Vernon usava a guitarra acústica ao peito. Esses tempos voltariam pelo meio do concerto com “Perth”, “Minnesota WI”, “Beach Baby” , já no final, com “Holocene”, “Calgary” e, para terminar, depois de uma explosiva distorção, como já o tinha feito em Barcelona, “Skinny Love”. Mas o destaque foi para o álbum lançado o ano passado e que deixou à mostra uma vontade de experimentar para além do folk e da voz harmoniosa.

Podia pensar-se que o público se sentia dividido entre os dois registos e até entre este e o concerto de Swans que decorreu em simultâneo no palco Ponto., mas foi ali, diante do Palco NOS, que se concentrou a grande multidão da noite.

E o público não pareceu desiludido: Bon Iver é agora sim uma banda e não um artista com uma banda. Duas baterias (modelo também adotado por King Gizzard & The Lizzard Wizzard), sintetizadores, saxofones que solaram, pedais, filtros e uma clara aposta nos efeitos visuais, projetados no fundo do placo, qual fronteira a marcar o início do território “boniveriano”.

Até ao momento deste concerto, a maior parte das 30 mil pessoas que a organização diz terem estado no recinto (lotação esgotada), escolheu Bon Iver. Mesmo que distraidamente, de telemóvel na mão e por entre conversas paralelas na encosta de relva, à luz da lua cheia.

Da parte do músico, ficou um elogio às “vibes” da cidade e ao Primavera, “o festival com mais classe do mundo” e um conselho. “Tentem o máximo que conseguirem não ter medo de morrer”, atirou. Signifique isso o que quer que signifique.

Os saxofonistas de Bon Iver Foto: Hugo Lima/NOS Primavera Sound 2017

Os anos 60 de Angel Olsen

No mesmo palco, horas antes, a americana Angel Olsen apareceu de guitarra na mão, cabelo apanhado ao alto e eye liner marcado. O sol começava nessa altura a descer. A voz tão forte como amorosa dirige-se ao público de sorriso na cara, ora meigo ora sedutor, momentos de timidez a disfarçarem a constante calma que, de tanta força ter, passa a turbilhão.

Abriu com “High And Wild” mas foi com a “Shut Up Kiss Me” do álbum lançado o ano passado que o público começou a dançar.

A artista do Missouri (que deve ter uma costela de country de tão torturada que a sua alma soa) passou pelo rock e pelo folk, acompanhada por uma banda de fato à anos 60 que não só compreendem as suas angustias, como as enaltecem. “Acrobat”, “Those Days” e “Windows” saíram do palco disparados até ao cimo da encosta. Uma imagem bonita, esbatida pelo sol e pela luz de Angel.

Angel Olsen NPS 2017/ Hugo Lima

A força da honestidade de Hamilton Leithauser (ex-The Walkmen)

Se havia momento para dar um salto ao palco Pitchfork, o mais próximo da entrada do recinto, e que é programado com a ajuda do site de música que lhe empresta o nome, tinha de ser para ver o concerto do músico americano que terminou a tour nesta sexta-feira, no Porto.

Hamilton Leithauser é uma daquelas pessoas que se ri das suas desgraças, admite que nada lhe corre bem, faz uma musica, partilha a história e venha a próxima que pode ser que corra melhor. Como quando, a meio do concerto contou que, uma vez, estava num casamento em Nova Iorque (na pior mesa, lá ao fundo, longe dos noivos) e um senhor levanta-se para fazer um discurso. Foi um “ótimo discurso, lindo”, tão bom que quando estava a acabar, o carismático vocalista começou a chorar. E o senhor que tinha acabado o discurso começou a chorar. “Aí senti uma conexão gigante, até que ele foi expulso porque não tinha sido convidado para a festa”, diz encolhendo os ombros. Parte trágica é que, este senhor, era na verdade o pai da noiva. Nasceu assim a Bride’s Dad“. Não um grande homem, mas  um grande homem para escrever uma música”.

Hamilton começou nos Recoys, mas foi com os The Walkmen que ficou conhecido. Gostou tanto da capital portuguesa que chamou ao sexto álbum que gravaram “Lisbon” (já mais cedo, o público portuense se tinha rido quando, com os lisboetas a ir ao rubro, Whitney admitiram, sem vergonha, adorar Lisboa mais do que o Porto).

O concerto de músicas felizes sobre tristezas teve um óbvio ponto alto: a música “A 100 Times”, que dá nome ao álbum de 2016 “I Had A Dream That You Were Mine” e que aparece numa das cenas mais importantes da polémica série sobre suicídio “13 Reasons Why”. Um hino para o momento de viragem de um momento mau num momento bom: o público lançou braços ao ar, atirou a cabeça para trás, fechou os olhos e gritou a plenos pulmões: “But all that I have/ is this old dream I must have had”.

A guitarra de 12 cordas, a harmónica (que tem de confirmar as certezas a quem, em alguns momentos, soou um certo Bob Dylan), uma voz que vai do grito à nota mais melódica num segundo, a segurança com que esgana o microfone hirto no centro do palco, a atitude e a sinceridade. Voltou o rock aos NOS Primavera Sound.

O manifesto da classe trabalhadora

Os britânicos Sleaford Mods, formados por Jason Williamson e Andrew Fearn, descrevem-se a si próprios como música para a “classe trabalhadora”. As suas letras falam de capitalismo, desemprego e outros tópicos da vida moderna. A música com que terminaram o concerto, “Tweet Tweet Tweet”, fala de uma “vida não vivida” e de zombies que tweetam.

Mas o grande elemento diferenciador destes músicos vindos de Nottingham é a maneira como se apresentam em palco. Fearn traz consigo um portátil, carrega no play e Williamson começa a cantar, muitas vezes com um tom de raiva na voz. Mas este cantar é muitas vezes misturado com discurso falado pelo meio e improviso que muitas vezes levam o público à gargalhada e a bater palmas.

A parte instrumental dos Sleaford é peculiar. Fearn cria batidas minimalistas em loop, e às vezes com curtos acordes de guitarra à mistura, como se pode verificar com “Time Sands”, em que a música combina na perfeição com a voz de Williamson.

Depois da euforia em “Tied Up in Nottz”, em que várias pessoas não aguentaram e formaram uma moche, Williamson dirigiu-se ao público e disse que era “um dia mau para Inglaterra, e um dia bom para o Porto”.

Nicolas Jaar NPS 2017/ Hugo Lima

A genialidade de Nicolas Jaar

É difícil descrever um concerto de Nicolas Jaar para alguém que não esteve presente e quer perceber o que se passou. E quem vai a um concerto de Jaar e não conhece a música que toca, corre o sério risco de se surpreender.

Os primeiros 20 minutos no principal palco do NOS Primavera Sound foram um prenúncio da genialidade que se avizinhava no decorrer do resto do espetáculo. Envolto numa escuridão, Jaar começou a tocar e muitas vezes a testar a paciência da plateia.

A música mantinha-se sempre no mesmo registo, o público estava em suspenso e no palco a única referência visual era uma barra de luz. Muitas pessoas começaram a dispersar-se, mas perderam a oportunidade de ver o que se passou a seguir: Jaar quebrou o ritmo e acelerou a música. A partir daí, foi possível ver pessoas a dançar de forma efusiva.

A música de Nicolas Jaar é um camaleão, misturando house, techno, minimalismo e soul, entre outros. A mudança de faixas instrumentais para outras que são cantadas, como foram as bem recebidas “No” e “Space Is Only Noise If You Can See”, é feita de forma imaculada. Não há quebra de ritmo.

Nicolas Jaar é um faz-tudo: mistura as músicas ao vivo e dá a voz ao mesmo tempo. E nós temos a sorte de vermos alguém assim no género da eletrónica.

A última noite do festival, este sábado tem como cabeça de cartaz Aphex Twin e traz ainda (entre outros, aqui estão novamente as escolhas difíceis) Elza Soares, Sampha, Death Grips, Metronomy ou Black Angels.

Artigo editado por Filipa Silva