“Se há algo que faz com que os investigadores continuem a ambicionar estudar o ciberjornalismo é o facto deste mundo estar sempre em constante mudança, o que não os deixa sossegar em certezas que são sempre provisórias”. A ideia foi partilhada por Hélder Bastos, diretor da Licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto [de que o JPN faz parte], na sessão de abertura das IV Jornadas ObCiber. Serviu a ideia de mote para o tema que as jornadas escolheram para a edição deste ano: a sobrevivência (ou falta dela) dos cibermeios em Portugal.

“A Internet não é um quiosque”

João Francisco Gomes, jornalista do Observador, uma das maiores redações online portuguesas, foi o primeiro a apresentar o seu ponto de vista.

“Se é inegável que a informação circula, é também inegável que os jornais têm de estar na Internet”. Um espaço que está longe de refletir aquele onde tradicionalmente se “compravam” as notícias.

“Na Internet existe muita informação que não é informação, é desinformação”, afirma. João Francisco Gomes compara: quando vamos a um quiosque e deparamo-nos com os jornais em exposição, apesar de nos podermos identificar mais com uma linha editorial ou com outra, sabemos que é jornalismo. “A Internet não é um quiosque. Não há só jornalismo lá. É muito fácil estarmos a ler uma notícia e quando reparamos estamos numa página que não é jornalismo”, reflete o repórter do Observador.

O primeiro grande desafio, segundo João Francisco Gomes, é afirmar o ciberjornalimo como um jornalismo de qualidade, de referência. Mas, na Internet.

Outros dos grandes problemas com que se debate o ciberjornalismo é o seu financiamento. A Internet é gratuita e livre para toda a gente.

“Se já havia uma grande dificuldade em convencer as pessoas a darem dinheiro pela informação nos meios tradicionais, quando chegamos à Internet esse problema ainda é maior”, refere. O jornalista sublinha que uma estrondosa maioria de cibernautas não vai pagar por informação online e, portanto, quando confrontada com isso, fecha o separador. Vai ao Google, procuram e encontram gratuitamente a informação noutro sítio qualquer.

Deste modo, o Observador optou por apresentar todos os seus conteúdos gratuitamente. Como sobrevive? Segundo João Francisco Gomes, à custa da publicidade e de conteúdos patrocinados.

“É uma aventura sobreviver todos os dias”

Pedro Emanuel Santos, do Porto24, afirma que é mesmo “uma aventura sobreviver todos os dias”.

O jornalista diz que quer queiramos, quer não, a publicidade é uma questão que tem que ser colocada quase diariamente. Sem publicidade não há financiamento e, sem isso, os jornais não têm futuro.”Podemos ter os melhores conteúdos do mundo, mas sem dinheiro não vamos a lado nenhum”, referiu Pedro Emanuel Santos.

O repórter abordou também a escassez de meios.  O jornalista diz que se criou a ideia do jornalismo “low cost” por se achar que com uma mini-redação se faz um grande jornal. O barco vai-se amparando porque o “jornalismo é uma das únicas profissões com uma motivação quase masoquista de fazer bem, fazer melhor, mesmo que um jornalista não ganhe muito substancialmente.” É esta a chave para, atualmente, o jornalismo ainda estar de pé, na sua opinião.

Jornalistas gestores ou gestores que não percebem nada de jornalismo?

A pergunta partiu da plateia. João Gomes foi o primeiro a responder. Para ele, um jornalista não deve ocupar todo o seu tempo a gerir recursos, no entanto, deve ter uma preocupação muito grande com a rentabilização do jornal.

Para Patrícia Fonseca, jornalista na “Visão” e fundadora do jornal online “MédioTejo.net”, “a pior coisa que aconteceu ao jornalismo foi o jornal ser cotado na bolsa.” A jornalista frisa as diferenças entre dirigir uma empresa jornalística e outra de outra natureza. “O jornal é um serviço público” e isso tem que ser tido em conta na gestão, considerou.

A reportagem vai acabar?

Para Patrícia Fonseca, os méritos de uma boa reportagem superam o risco que muitas ultrapassam: o de não dar nem lucro nem as visualizações pretendidas. “Uma coisa é certa, atribui mais credibilidade [ao meio]”, reflete.

Já Pedro Santos afirma que “no dia em que morrer a reportagem, morre o jornalismo”. Isto porque, completa Patrícia Fonseca, “o jornalismo é reportar, é estar presente, é inovar”.

João Gomes refere o género de reportagem que cada vez mais está a ser implementado nas redações – a reportagem por telefone. A urgência da instantaneidade de saída de notícias e a falta de orçamento são as principais razões. “Não é que não queiramos sair para a rua. Mas, eu digo que, amanhã, quero ir cobrir um evento ao Porto e outro ao Algarve e eles dizem que não há dinheiro”, explica o jornalista do Observador.

“Jornalismo é militância”, declara Luís Almeida, jornalista no jornal regional Caminh@2000, também presente no debate. O repórter diz que se já é difícil fazer-se reportagem em jornais nacionais, mais difícil é fazer reportagem num jornal na província. Contudo, “faz-se reportagem”, afirma o jornalista.

Fernando Zamith, moderador do debate, jornalista e docente de LCC, concluiu a sessão com outra ideia: a de que o jornalista deve se o vigilante atento dos vários poderes.

No âmbito das IV Jornadas do ObCiber, que decorreram durante a manhã de quarta-feira, foi ainda apresentado o livro de Pedro Jerónimo “Media e Jornalismo de Proximidade na era digital” e anunciados os vencedores do Prémios de Ciberjornalismo 2017.

Artigo editado por Filipa Silva