A Fábrica da Rua da Alegria acolheu, nos últimos 12 anos, mais de 35 estruturas ligadas às artes e ao espetáculo. O fim do espaço pode pôr um ponto final a alguns projetos. O JPN foi descobrir que perspetivas se desenham no futuro das companhias.

Os membros das companhias que ocupavam a Fábrica sabiam que os seus dias na Rua da Alegria estavam contados. O edifício foi adquirido pela Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) em 2001 como parte do projeto de ampliação da escola. Por falta de verbas, as obras não avançaram e em 2005 o espaço foi cedido a um grupo de ex-alunos do curso de teatro que precisavam de um sítio para ensaiar. Doze anos depois, as obras vão iniciar-se e os residentes da antiga fábrica de meias têm de sair.

A Fábrica da Rua da Alegria serviu de casa a vários artistas. Nos últimos 12 anos passaram pelo edifício, composto por 11 salas de ensaios, 3 oficinas de cenografia e vários escritórios, mais de 35 estruturas.

António Augusto Aguiar, presidente da ESMAE, frisa que a cedência foi sempre de caráter temporário e que os utilizadores do espaço sabiam que podiam ter de o deixar. Ricardo Alves, do Teatro Palmilha Dentada, Raúl Pereira, da Limite Zero Associação Cultural e António Franco Oliveira, da Radar 360, são algumas das pessoas que confirmam esta informação ao JPN.

Há dois anos as estruturas instaladas na Fábrica receberam a informação de que a saída estava próxima. Ricardo Alves explica ao JPN que o Instituto Politécnico do Porto (IPP) tentou encontrar uma solução. O artista conta que viram vários espaços e tentaram que a Câmara cedesse um local. A autarquia cedeu ao pedido e indicou que a antiga escola primária José Gomes Ferreira seria a nova morada das estruturas instaladas na Rua da Alegria.

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Quando tudo muda

Julieta Guimarães avança que os planos se alteraram em outubro do último ano, quando a presidência do IPP informou os residentes da Fábrica que teriam que deixar o espaço até 31 de janeiro de 2018. Os membros da companhia receberam ainda a informação de que apenas se poderiam instalar na escola cedida pela Câmara durante o período máximo de um ano. Ricardo Alves adianta ao JPN que esta situação não satisfazia as necessidades das estruturas instaladas na Rua da Alegria, razão pela qual decidiram não se mudar de todo.

O elemento do Teatro Palmilha Dentada diz que como não conseguiram chegar a acordo com o IPP sobre o modelo de funcionamento, resolveram deixar o instituto: “ [Foi o IPP] quem fez o protocolo com a Câmara, a rentabilização do espaço, partimos à procura de um novo. Uma nova solução, tanto individualmente como coletivamente.”

Os residentes não receberam indicação de alternativas à escola, que António Franco Oliveira, da Radar 360, diz não constituir uma possibilidade para todos, pois o espaço representava apenas um quarto da área total da Fábrica.

Raúl Pereira, da Limite Zero, acrescenta que ninguém tinha obrigação de apresentar alternativas, uma vez que todos sabiam, desde a altura em que entraram no espaço, que podiam ter de o deixar.

Companhias sem casa certa

Julieta Guimarães conta ao JPN que, aquando da saída da Fábrica da Rua da Alegria, estavam instaladas na mesma 11 companhias – Erva Daninha, Radar 360, Teatro do Frio, PELE, Fado em Trio, Teatro a 4, Pé de Cabra, Palmilha dentada, Clown Lab, Limite Zero, Tenda de Saias – e dois criadores individuais – Emanuel Santos e Sandra Neves. Todos foram afetados de forma diferente.

A Tenda das Saias saiu um pouco antes do dia 31 de janeiro, por não concordar com as alternativas oferecidas à Fábrica, uma vez que não iam ter as condições das quais dispunham na mesma. Atualmente, não têm sítio para ensaiar, nem para armazenar as coisas.

A Palmilha Dentada ainda está à procura de solução. Por enquanto, os artistas têm um armazém temporário no qual guardam os materiais e acabam a produção que têm em mãos. Estão em negociações com outras entidades para encontrar uma solução definitiva.

“Tiveram de colocar as coisas em casa do pai e da mãe”

A Erva Daninha foi acolhida como residente no Teatro Campo Alegre, mas há pessoas que estão em situações muito precárias, diz Julieta: “Tiveram de colocar as coisas em casa do pai e da mãe”. Outras estão à procura de outros lugares, porque ficaram “sem espaço nenhum”- como é o caso do Fado em Trio e do Teatro a Quatro. O Clown Lab decidiu acabar com o projeto devido ao fim da Fábrica, porque não tinham como dar seguimento ao mesmo.

Raúl Pereira, da Limite Zero, conta que a associação é atualmente uma estrutura própria que conta com alguns parceiros e um espaço.

A Radar 360 – que nunca viu na escola José Gomes Ferreira uma alternativa, porque segundo António Franco Oliveira não tinha escala para receber o projeto- encontra-se atualmente em negociações com a Câmara de Matosinhos para conseguir um sítio.

Além das consequências para as companhias e criadores, o fim da fábrica levanta questões sobre a falta de salas de ensaio no Porto, salientadas por Ricardo Alves, em declarações ao Público. O elemento da Palmilha Dentada ressaltou que este era um problema que já existia e que se agrava com o fim da Fábrica.

Julieta Guimarães partilha a mesma ideia. A fundadora do grupo Erva Daninha diz que o Porto não tem espaços suficientes e adequados às necessidades dos antigos residentes da Fábrica e de outras companhias/indivíduos, “principalmente para a pequena criação”.

Artigo editado por Sara Beatriz Monteiro