Montse Alsina pediu várias vezes desculpa pelo tempo que demorou a responder ao pedido de entrevista do JPN, mas explica que por estes dias não tem tido mãos a medir. Ela é responsável pela Plataforma das Universidades pelos Direitos Civis e Democracia da Catalunha (Pucat), uma estrutura que pretende coordenar as diversas forças pró-independentistas do meio universitário catalão, numa altura em que, diz, estão “a viver uma grande crise democrática nas universidades e na sociedade“.

O espírito de abertura, liberdade e progressismo que está historicamente na base da criação da Universidade está a ser posto em causa na Catalunha, segundo Montse Alsina: “os professores e funcionários das universidades estão preocupados, porque há professores presos“, lembra a também professora, da Escola Politècnica Superior d’Enginyeria de Manresa. Refere-se a docentes como Carmen Forcadell ou Oriol Junqueras, que estão entre os líderes independentistas atualmente encarcerados, muito embora não por motivos académicos. Perante isto, como faz questão de sublinhar, “o silêncio não é opção“.

Reação à sentença

A 14 de outubro foi decretada a sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que condena nove líderes independentistas catalães a penas de prisão entre os nove anos e meio e os 13 anos, pelos delitos de sedição e desvio de fundos públicos.

“Houve uma reação generalizada à sentença” no meio académico, que reúne em toda a Catalunha 200 mil pessoas, sublinha Montse Alsina. Em Barcelona, as faculdades estiveram encerradas, houve concentrações de professores, funcionários e alunos que partiram em protesto para o centro da cidade ou se juntaram aos manifestantes convocados pelo movimento Tsunami Democràtic, no Aeroporto. “A comunidade académica esteve encarregada de parar a cidade nesse dia”, conta.

Manifesto foi embrião para a criação da Pucat

Nas universidades da Catalunha sempre floresceram associações e movimentos pró-independentistas, mas nos últimos meses foi feito um esforço de unificação que permitiu a publicação de um manifesto conjunto, em junho passado.

Esta dinâmica impulsionou ainda a criação da Pucat, estrutura que inclui diversas associações existentes nas universidades, bem como elementos da Assemblea e da Omnium, organizações que têm tido um papel central no movimento independentista. A Assemblea é uma plataforma cívica de ação política, enquanto a Omnium é uma organização cultural que promove a cultura e a língua catalãs. Montse Alsina é também Coordenadora do Sectorial Universidades e Investigação da Assemblea e integra igualmente a Omnium.

Estudantes têm participado ativamente no movimento

A professora do Departamento de Matemáticas sublinha ainda o papel determinante que tem sido desempenhado pelo movimento estudantil.

Depois de tornada pública a sentença, os estudantes convocaram uma greve às aulas. Reivindicavam a criação de um sistema de avaliação flexível que lhes permitisse faltar às aulas para estarem mobilizados nas acções de protesto, face à situação de excecionalidade que se vive na Catalunha. “Isto ocorreu em diferentes Universidades de formas diferentes, mas [os alunos] conseguiram o que queriam mais ou menos em todas”, garante Montse Alsina.

Outra forma de protesto dos estudantes foi a ocupação da Praça da Universidade, no centro de Barcelona, num movimento chamado Assemblea Uni e que terminou dia 20 de novembro com intervenção policial.

Montse Alsina sublinha que os independentistas só vão parar de lutar quando conseguirem o que pretendem: quando “as pessoas forem livres, pudermos sentar-nos e falar, pudermos ter um referendo e votar democraticamente”. Face aos últimos acontecimentos a professora universitária considera, porém, que há muito a fazer: “ainda estamos muito longe disso”, concluiu.

Assim, já estão convocados novos protestos como uma ação do Pícnic per la República a ter lugar a 6 de dezembro, Dia da Constituição em Espanha, ou uma manifestação que está a ser organizada pelo Tsunasmi Democràtic para o clássico Barcelona-Real Madrid que se jogará no Camp Nou dia 18 de Dezembro.

Artigo editado por Filipa Silva