Imigrantes ou portugueses convertidos, "a religião é o maior laço" que une a comunidade muçulmana do Porto. Discretos e diplomáticos na hora de contornar adversidades num país não-islâmico, convivem harmoniosamente com a cultura dominante. Lançamos a quinta de uma série de reportagens desenvolvidas pela redação do JPN sob o mote "comunidades".

Chegar à mesquita é chegar à comunidade. Entrar é conhecê-la: como uma verdadeira manta de retalhos do mundo, discreta e em crescimento. Além disso, portuense, à medida que se vai moldando, sem esquecer os preceitos de sempre. Nos locais de culto, ou a deambular pelas ruas da baixa, o JPN foi saber de histórias e traços deste Islão tripeiro.

No número 223 da Rua do Heroísmo, encontramos a mesquita principal do Porto. Pelo menos, é-o na prática, para os crentes. Para efeitos de licenciamento, é o Centro Cultural Islâmico do Porto. Outrora um ginásio, hoje, as paredes da mesquita improvisada do Heroísmo reúnem uma comunidade de 5 mil pessoas de várias nacionalidades. Mas não era assim na década de 90, quando abriu portas. 

Há já um segundo local de culto no Porto, perto da Estação de São Bento. Numa ruela discreta da Travessa do Loureiro, fica a Hazrat Hamza, estabelecida mais recentemente por imigrantes do Bangladesh. À sexta-feira, as duas mesquitas enchem-se de gente. É o dia sagrado, “como o domingo dos cristãos”. A do Heroísmo recebe, sobretudo, guineenses, senegaleses e portugueses. A do Loureiro, bangladeshianos, indianos e paquistaneses que por ali trabalham. 

Apesar de esteticamente diferentes, em ambas nos deparamos com dois espaços destinados à oração – um para homens e outro para mulheres – e a total ausência de imagens religiosas, pois a idolatria não é permitida no Islão. Mahmoud Soares, o responsável pelo Centro Cultural Islâmico, apresenta-nos um Islão sobretudo “democrático”.

“Aqui somos todos iguais. Ao fazermos as orações há partes dos nossos corpos que entram em contacto com quem está ao nosso lado, seja ele negro, chinês, empresário, trolha, pobre, rico, não importa. Não se forma uma fila nova [durante a oração] até aquela estar completa. Dentro da mesquita ninguém tem um estatuto superior ao dos outros”, narra Mahmoud Soares.

Espaço de oração reservado aos homens, na mesquita Hazrat Hamza, na Travessa do Loureiro.

Não se sabe ao certo quantos são os muçulmanos no Porto. O que há é uma estimativa, calculada com base nos registos das pessoas que se convertem e frequentam a mesquita do Heroísmo. Além disso, “a comunidade é maioritariamente imigrante, não é estática, há muito dinamismo”, explica Mahmoud Soares. Se algumas pessoas vêm e permanecem, outras há que se deixam ficar por um par de anos, e depois voltam a partir.

Porquê Portugal?

Portugal, porque é “fácil arranjar os papéis de residência”, explica Nadeem Mahmood. “Está-se bem aqui, as pessoas são boas e não há problemas.” Veio do Paquistão há nove meses, sem conhecer ninguém no Porto. Diz que o seu plano é trazer a família, depois de obter o estatuto de residência, até porque “a educação é melhor do que no Paquistão” – um dos fatores de peso para quem tem filhos. 

São muitos os que vêm encorajados por amigos e familiares, que já se estabeleceram por cá. Vêm à procura de oportunidades de negócio, com vista a um futuro melhor, para pais e filhos. 

Nusrath Qurashi veio em 1999 – já lá vão vinte anos -, pela crise económica vivida na Índia. Trabalha num mini-mercado indiano, perto da Batalha. A fachada vermelha salta à vista dos transeuntes; aqueles que lá entram, encontram especiarias, chás e outros produtos indianos. “Portugal é um país com liberdade para todos, certo? É por isso que as pessoas que chegaram para ver, ficaram e não querem voltar”, diz-nos. 

A “ligação histórica” com alguns países – nomeadamente com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) como a Guiné-Bissau ou Moçambique -, também é uma razão que motiva a vinda. A língua é um fator decisivo no momento da adaptação; sabê-la de antemão facilita e muito o processo. 

Também há quem venha para estudar, como Azhar Bondi, que já tinha familiares em Portugal. Tem 20 anos e está no primeiro ano de Línguas Aplicadas, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Quem passou primeiro por Lisboa, como Shah Alam Kazol, encontrou depois um Porto “mais calmo”, e uma comunidade bem mais pequena. O comerciante deixou o Bangladesh em 1992 para se fixar na capital portuguesa, rumando a Norte em 2001.

Domínio do português

“A primeira barreira é a língua”. Depois de sabida, “a vida fica mais fácil”, assegura Nusrath Qurashi. Num curso do Centro de Emprego, aprendeu português em dois anos. Shah Alam Kazol é da mesma opinião, e garante que “com o tempo, consegue-se”. 

Sabia que…
Os primeiros muçulmanos a fixar-se em Portugal vieram de Moçambique e da Guiné, no pós 25 de Abril. Hoje, estima-se que sejam 50 mil, dos quais 30 mil estão só na Grande Lisboa. Segundo Mahmoud Soares, há 54 locais de culto espalhados pelo país – espaços muitas vezes improvisados, como lojas adaptadas.

Para ser aceite na FLUP, Azhar Bondi precisava de um certificado de nível C1, ou seja, ser uma utilizadora proficiente e autónoma da língua portuguesa. Conseguiu-o em cinco meses, cá em Portugal, e pôde assim entrar na faculdade. 

Há, contudo, quem não domine a língua portuguesa, sem sentir que tal atrapalhe muito. Sharmin Akter, que chegou a Portugal em agosto do ano passado, trabalha numa loja de telemóveis, na Rua Chã. É em Aveiro que reside, mas vem para o Porto de comboio, todos os dias. “Se eu tiver algum problema, tenho uma amiga portuguesa que me ajuda sempre. Ela fala comigo em inglês”, esclarece.

Fazer e ser parte

“Sinto-me integrado no Porto e a maior parte dos meus colegas também”, diz Shah Alam Kazol. Proprietário de uma loja de souvenirs perto de São Bento, está rodeado de compatriotas. É que, ali, entre as ruas do Loureiro, Cimo de Vila, Cativo e Chã, está reunida uma grande comunidade de bangladeshianos, além de paquistaneses e indianos. 

Além de comerciante, Shah Alam Kazol preside a Comunidade de Bangladesh do Porto. A associação prepara vários eventos para os imigrantes bangladeshianos e envolve-se em várias iniciativas políticas, culturais e sociais. “Nós reunimos e falamos sobre os problemas que os imigrantes enfrentam aqui, no dia a dia”, refere. 

“No Dia Internacional da Língua Materna, a 21 de fevereiro, inaugurámos um monumento, na Rua Chã”, conta o presidente. Celebram o Dia Nacional do Bangladesh, bem como o Dia da Independência do país, mas não deixam passar em branco o Dia de Portugal e o São João – “que nós, aqui, comemoramos com os nossos vizinhos”. Todos os anos, há uma cerimónia onde atribuem “prémios de interculturalidade” a várias personalidades.  

Monumento inaugurado no Dia Internacional da Língua Materna, pelos imigrantes do Bangladesh.

Não tarda muito até encontrarmos quem nos fale de como é ser muçulmano com sotaque do Porto. Al Fahad Ramin tem 22 anos e está em Portugal desde os seis. Primeiro, veio o pai – também do Bangladesh. “Quando se conseguiu organizar, veio o resto da família”, conta. Al Fahad diz sentir-se bem no Porto; “melhor do que noutras cidades, talvez por ter crescido aqui”. 

“Sempre andei mais com portugueses”, afirma. Confessa que, “como os rapazes mais modernos”, não segue à risca os preceitos da religião. “As orações não são feitas regularmente, como deviam ser. Mas há uma coisa que seguimos sempre, tal como os cristãos: o dia sagrado, que [no caso dos muçulmanos] é à sexta-feira.” Diz sentir uma “mistura” das culturas bangladeshiana e portuguesa: “sigo as coisas mais sérias; outras coisas que me apeteça fazer, sigo a cultura portuguesa, à vontade.”

Atualmente, está a trabalhar numa loja da Rua do Loureiro, o que o faz passar mais tempo com a comunidade que ali se junta. Trata as pessoas mais velhas por “tios” e garante que as “diferenças” ficaram nos países de origem. “Aqui, como estamos muito longe do nosso país, pensamos que é melhor estarmos unidos, do que andarmos em guerras: ‘tu és do Paquistão, eu sou da Índia, ele é do Bangladesh’”, relata

A mesquita é o principal centro de convívio desta comunidade. Fora dela, a maior parte leva uma vida recatada, que se reparte entre trabalho e casa. Convivem maioritariamente em casa uns dos outros, não havendo nenhum ponto de encontro particular para pessoas da comunidade. Para os mais jovens, os cafés ou festas que frequentam são exatamente os mesmos do que as outras pessoas da sua idade.

Na Rua do Cimo de Vila, dois jovens da comunidade, que preferiram não dar entrevista por não dominarem ainda nem o inglês nem o português, acompanham o JPN até à Hazrat Hamza.

Trabalhar e, pelo meio, rezar

A religião dita que se reze cinco vezes ao dia, voltado para Meca. Nos países muçulmanos, soa o adhan – o chamamento para a oração. “Querendo ou não, é obrigatório fechar todas as lojas e a regra funciona”, explica Mahmoud Soares, outrora Jaime. Todavia, em Portugal, quando “chega a hora da oração”, o professor de Filosofia não pode interromper a aula, porque é “só um” e é preciso “adaptar-se à realidade”. 

Quando se trabalha por conta própria, é mais fácil fechar a porta ou cessar funções durante o curto período de oração. A duração das orações varia de pessoa para pessoa. Geralmente, rondam os 10 minutos e os horários não são fixos, mas ditados pelas etapas do curso do sol. À sexta-feira, os fiéis vão à mesquita e a oração do almoço é mais longa, porque inclui um khutba (sermão).

Mahmoud explica que, no caso de existir uma mesquita por perto, deve-se lá ir. Mas lembra que “o profeta Muhammad dizia que todos os locais do mundo são mesquitas” e que, portanto, a oração pode ser feita em qualquer parte. “Em qualquer espaço, estendemos o tapete – porque aquele pequeno local onde nós fazemos a oração deve estar limpo; pode ser um tapete, um casaco, um cartão”, esclarece. 

À direita, o rosário árabe (mashaba); à esquerda, o tapete de oração.

Ricardo Gomes converteu-se ao Islão há sete anos. Sempre trabalhou na área de desporto, mas, mais recentemente, está a trabalhar com a mãe no mercado do Bolhão. Não vive num país muçulmano; se vivesse, “não tinha problema nenhum em pegar no tapete e, em frente à banca da minha mãe, fazer a oração”, afirma ao JPN. Não o faz, “para evitar aquelas bocas”. 

Nos estabelecimentos de venda, costuma existir um espaço resguardado dos olhares dos clientes, onde fazem a oração quando não vão à mesquita. Se há mais do que um proprietário ou funcionário, em negócios geridos por muçulmanos, é comum fazerem as orações por turnos. Na mercearia indiana, por exemplo, “um vai, enquanto o outro fica”. 

Azhar Bondi afirma que “não é tão rígido como as pessoas pensam”. Não tendo um espaço nas instalações da faculdade para rezar – e depois de alguns percalços a rezar ao ar livre -, a jovem optou por fazer as orações quando chega a casa. Além disso, quando não é possível realizar a ablução – ritual que precede o momento de oração, em que se lavam partes do corpo com água -, “a religião facilita”. Podem fazer-se determinados gestos, sem água, mas com o mesmo significado. 

Zona reservada à ablução, na mesquita do Loureiro, com arrumação para o calçado, água corrente e sabão líquido.

Shahada: o primeiro dos cinco pilares do Islão 

Recitar a Shahada em árabe é tanto quanto é preciso para a conversão. São três frases, a atestar que se crê que há um só Deus, que Maomé é o seu profeta e que se acredita nos profetas de Deus, incluindo Jesus e Maria. Ricardo Gomes recitou-a faz já sete anos, na mesquita do Heroísmo, frente a um letreiro azul escuro, com a inscrição árabe a dourado. Mas podia tê-lo feito em casa, podia ter-se convertido sozinho. “O Islão é muito democrático”, garante. 

Sempre foi religioso: primeiro, seguiu a religião católica, e, depois, a evangélica, mas “sempre dentro do Cristianismo”. Contudo, havia questões, nas duas que lhe faziam “confusão”. E foi o estudo da bíblia que o levou a converter-se ao Islão.

A companheira ainda não se converteu, apesar de seguir igualmente os preceitos da religião. O filho, ainda pequeno, faz a oração com o pai. “Se eu lhe disser que vamos fazer a oração, ele vai buscar o Alcorão, já se põe na posição de muçulmano, já é automático”, conta, e explica que o filho nasceu muçulmano por o pai o ser. Ao nascer, é recitado ao ouvido da criança o chamamento para a oração. 

À parte do álcool, que deixou de consumir – “não faz falta nenhuma”, garante -, mantém-se tudo igual: “vou a festas, vou ver o Porto, é tudo exatamente normal”. Mas garante ter ganho alguns valores, principalmente no âmago familiar. Conta que o islamismo lhe trouxe um renovado respeito pelas mulheres e um novo sentido de comunidade: “se tu passares fome, eu, sabendo, não consigo comer”. O zakat, ou a prática de caridade, é um dos cinco pilares fundamentais do islamismo. 

Letreiro com a Shahada, frente ao qual se realiza a conversão, na mesquita do Heroísmo.

“Há bastantes convertidos”, afirma Ricardo. “Se fores a uma igreja evangélica, 90% são brasileiros; se fores a uma igreja católica, 90% são portugueses; se fores a uma mesquita, não consegues determinar”, acrescenta. “Mistura-se” toda a gente, desde ucranianos a senegaleses, portugueses, angolanos ou caboverdianos.

A mesquita está aberta a toda a gente que tenha interesse em saber mais sobre a religião e que deseje converter-se. Mahmoud recorda o caso de um rapaz,  português, que se apaixonou por uma jovem indonésia; “queria casar-se e tornar-se muçulmano para estar mais próximo dela”. “Temos só uma conversa para perceber de onde vem esse desejo, se não se trata apenas de um desvario, e depois se a pessoa se quiser converter, converte-se”, explica.

“O rapaz disse-me que tinha um problema, que era gostar muito de cerveja (risos) e como sabem, nós não bebemos álcool. Acham que eu lhe disse ‘olha, quando deixares de beber cerveja volta cá’? Claro que não. Nós temos de ser absolutamente compreensivos! Disse: convertes-te e pouco a pouco vais deixando o álcool, pedes ajuda a Deus e ele há de ajudar-te a deixar”, relata.

No mapa, um breve relato de cada um dos sete membros da comunidade muçulmana do Porto com quem o JPN conversou.

Na escola: iguais, mas diferentes

“Eu tenho a obrigação, como qualquer muçulmano, de ensinar os meus filhos que somos iguais. Mas em termos de religião, não podemos ser hipócritas, somos diferentes”, observa Mamadou Jabi.

Garante que, até à data, não houve problemas na escola: “as pessoas são compreensivas, sabem que somos diferentes e respeitam a diferença”. Todas as manhãs começam com a mesma rotina: antes de ir para a escola, há a oração, e Mamadou ensina “um bocadinho” do Alcorão ao filho. Quando não há tempo, faz-se no carro, a caminho de mais um dia. 

Mahmoud Soares tem uma filha com oito anos. No início do ano letivo, preenche uma ficha, referindo os alimentos que a educanda não consome, bem como as atividades em que não participa, como as celebrações da Páscoa, do Carnaval e do Natal. Também o dia de aniversário difere: “não valorizamos… nos aniversários, devemos fazer o contrário: jejum!”, esclarece. 

As aulas não são interrompidas para a oração, já que os estabelecimentos de ensino não são islâmicos. E isso não é um problema: os alunos podem fazer as orações mais tarde, num intervalo. “Todos nós fazemos isso, na nossa prática. As crianças também”, normaliza Mamadou Jabi.

Mamadou Jabi, na zona de oração reservada aos homens.

“Porque estás a usar o lenço?”

“É sempre mais difícil para as mulheres”, diz Azhar Bondi, estudante da FLUP. “As pessoas julgam as mulheres, não julgam os homens”, porque nestes não existem “distinções” que evidenciem a religião. “Os homens podem vestir-se normalmente”, lembra. Vários têm sido os incidentes com que se depara por usar o hijab. Recorda um deles, com uma funcionária da faculdade: “Ela disse: ‘os teus primos no Médio Oriente estão a fazer asneiras…’; eu sou da Tunísia, tipo, norte de África! Não tem nada a ver.” 

Também já ouviu provocações em transportes públicos: “Porque estás a usar o lenço? É por causa do cabelo?” ou “pareces uma freira”, recorda. Azhar opta sempre por não responder, mas fica incomodada: “Não é por causa de eu usar um lenço ou vestir de maneira diferente que as pessoas têm o direito de perguntar este tipo de coisas. Se eu vejo uma pessoa com uma cruz, não vou perguntar se é católico.” 

Julga que muitas das reações se devem a desinformação, por acharem que o uso do lenço é obrigatório: “Na Tunísia, por exemplo, não obrigam. No meu caso, eu começava a usar o lenço e havia ameaças, a polícia ameaçou o meu pai se eu não tirasse o lenço. Portanto, há sempre duas situações. As pessoas não falam de que há mulheres que querem usar o lenço e que o governo não deixa, que os pais não deixam”. O uso de vestes islâmicas é atualmente permitido na Tunísia – com exceção, nas instituições públicas, das que tapam o rosto, como o niqab, que deixa apenas visíveis os olhos –, após décadas de proibição, mas é ainda controverso. 

Para Azhar, o uso do lenço não é uma obrigação, mas uma opção que deve ser respeitada por ser parte da sua crença. A estudante de 20 anos, que se considera feminista e que quer ser intérprete, considera que a religião não a impede de fazer tudo o que quer: “pratico taekwondo; faço parte da Associação de Estudantes da FLUP e do Núcleo de Línguas Aplicadas (NELA); se quero sair, saio. Quero viajar pelo mundo, conhecer muitas pessoas, aprender”.

A discriminação é uma realidade?

A maior parte diz que não, que “por aqui, não há problemas de discriminação” e que “pelo contrário, há ajuda”. Abdul Karim acrescenta, a título de exemplo: “quando alguém não sabe falar bem português, ensinam-nos”. O sócio-gerente do talho halal diz que não teve que pôr de parte as suas crenças, para ser aceite no Porto. Já Shah Alam Kazol admite que “às vezes há [discriminação], mas isso também faz parte da vida”. 

O Talho do Cativo é o único do Porto que segue as regras muçulmanas para o abate de animais.

“Durante o Ramadão, às vezes, é difícil…”, reconhece Mahmoud Soares. “Temos aqui casos que as pessoas são maltratadas durante o Ramadão”, acrescenta. Além disso, registam-se várias complicações com patrões intransigentes, que “não compreendem que a pessoa tenha que fazer jejum, tenha que estar mais lenta, numa coisa que não envolva tanta energia”, explica. 

Mahmoud recorda um episódio com uma das “irmãs” da mesquita: “Uma senhora da Líbia, que fez a tese de Medicina Dentária, aqui no Porto. Quando foi defender a tese, levava o hijab. Houve um elemento do júri que disse: ‘não, a senhora não vai apresentar de hijab e não a deixou. Depois, teve que pedir uma autorização à embaixada da Líbia, para servir de intermediária, para ter autorização para utilizar o hijab. Isso continua a acontecer”, diz.

Mahmoud Soares assegura que todos estão “atentos” a comportamentos discriminatórios. No entanto, “nunca nos servimos disso para dizermos que somos discriminados”, garante. Quando ocorrem, tais situações são geridas no seio da comunidade, “com tranquilidade” e “disponibilidade” para esclarecer e desconstruir “ideias erradas” sobre o Islão.

“Costumamos dizer às pessoas que, quando há um ataque terrorista, as primeiras vítimas são sempre as pessoas diretamente envolvidas. A seguir, é este irmão, aquele irmão, aquele irmão… Somos todos nós, que somos  atacados”, relata Mahmoud. Estão muitas vezes a “remar contra a maré”, porque lá “vem mais um atentado”.

Do lado de fora do Centro Cultural Islâmico, numa sexta-feira, após a oração principal.

Outras pequenas batalhas persistem. No Porto, há vários anos que a comunidade reivindica junto da Câmara Municipal a cedência de um talhão de terra num cemitério, que permita o enterro dos muçulmanos em sepulturas orientadas para Meca. Como o pedido nunca foi atendido, “os muçulmanos são sepultados sem qualquer critério no meio de qualquer outra pessoa e sem respeitar estes preceitos. Mas é um trabalho de diplomacia que temos de fazer de forma tranquila”, explica Mahmoud. 

“Se, na minha casa, há alguma coisa que eu possa fazer para melhorar? Com certeza que vou fazer. Mas nesta casa, aqui em Portugal, somos a minoria, não queremos impor nada”, diz Mamadou Jabi. O empresário entristece-se quando alguém “ofende” a religião, mas acredita que o tempo trará uma maior compreensão.

Comunidade em expansão. Aceitação progressiva?

Mahmoud Soares considera que faltam estudos sociológicos sobre a comunidade islâmica portuguesa. Não há certezas quanto ao tamanho da população, as nacionalidades que a compõem, ou ocupações. Sabe-se, contudo, que esta tem vindo a crescer e podem identificar-se alguns acontecimentos, no tempo e espaço, que o encorajaram.

Após a queda do muro de Berlim, por exemplo, chegavam ao país principalmente pessoas de países de matriz islâmica da ex-união soviética. Na década de 90, descreve Mahmoud, alterações jurídicas que potenciavam a imigração culminaram na chegada de vários imigrantes de Marrocos e da Argélia. Mais recente foi já a chegada de indianos. 

Desde há dois ou três anos, a comunidade muçulmana estende-se, sobretudo, com a chegada de refugiados da Síria, Eritreia e Iraque. Há também uma grande reunião de senegaleses, mas a comunidade guineense é, de entre todas, a maior. Entre os que vêm e vão, vários estudantes de mestrado e doutoramento – egípcios, por exemplo – instalam-se por cá, enquanto escrevem as suas teses.

Um grupo de visitantes é recebido por Mahmoud Soares, para uma visita guiada à principal mesquita portuense.

Há um “interesse crescente”: o Centro Cultural Islâmico recebe, anualmente, cerca de 3 mil pessoas, como grupos, escolas e escuteiros. “Cada um de nós tem a obrigação de dar um contributo positivo para a sociedade a que pertencemos e é isso que cada um de nós tenta fazer, na sua família, na sua comunidade… pouco a pouco”, garante Mahmoud. Como “embaixadores do Islão”, esclarece, citando o profeta Maomé.

A comunidade muçulmana portuguesa destaca-se pela sua capacidade de adaptação e coexistência pacífica com as outras comunidades. Mahmoud conta que “há uma professora universitária que está agora a colaborar connosco, porque soubemos que a nossa comunidade, a portuguesa, está a ser estudada na Europa como um caso de sucesso. É praticamente a única comunidade na Europa toda que não tem um único caso de agressividade”, conclui.

Artigo editado por Filipa Silva 

Este artigo foi realizado no âmbito de uma série de reportagens desenvolvidas pela redação do JPN sob o mote “comunidades”, entre fevereiro e março de 2020.