“É para usar grafite pura. Vamos fazer cinco esquiços rápidos, de três minutos cada”. Cláudia Amandi dá as indicações iniciais aos alunos do primeiro ano que, concentrados, desenham os primeiros traços da figura humana à sua frente.

A professora de desenho da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto explica que  há três objetos de representação: o espaço, a figura humana e o objeto. “A figura humana é um objeto de representação que acaba por nos espelhar a nós mesmos”, o que torna as aulas de modelo vivo um recurso essencial no ensino das Belas Artes.

“Por exemplo, para desenhos rápidos é muito bom no sentido em que conseguimos interpretar mais facilmente o tipo de posição em que a figura está, se há peso, se há tensão, se há violência.  Eles [os alunos] metem-se na própria personagem e conseguem interpretar mais facilmente isso do que uma pedra por exemplo, que é inerte”, esclarece a docente.

O realismo é a característica que os alunos mais prezam nestas aulas. João Duarte e Carolina dizem que apesar de ser mais difícil desenhar um modelo vivo é também mais recompensador, “quando eles se mexem um bocado é mais um desafio, ter que estar sempre a corrigir”.

Toda a aula é um trabalho conjunto, entre alunos, modelo e professor, numa dinâmica de constante estímulo e resposta, que passa despercebida ao olho desatento.

“Não é só estar ali quieto, e mesmo estar quieto é complicadíssimo”

Viriato Morais, de 43 anos, tem uma vasta experiência como modelo e explica que, “na relação com o professor, o modelo é o objeto que ele precisa de controlar para poder explicar a matéria que quer e a forma como quer, e por isso faz algumas exigências sobre o corpo” .

O modelo responde aos objetivos que o professor tem para a aula, que por sua vez depende do programa curricular e das necessidades dos alunos. “Por exemplo, se eu sei que agora vamos trabalhar um período mais ligado à iconografia clássica, então eu vou estudar formas clássicas, do corpo, pesos, portanto de toda a fluência do corpo, as posições, as inversões, que são muito complexas”, esclarece.

Ser modelo “não é só estar ali quieto” declara Viriato, “e mesmo estar quieto é complicadíssimo”.

A arte de observar e ser observado

Ao fim de 3 minutos, as grafites vão-se gastando contra o papel, as folhas vão-se acumulando no chão e o modelo muda de pose. Estático, tanto repousa os olhos no infinito como os passeia pelos cerca de 30 alunos que o observam.

“Eu se vir um aluno na rua não o conheço”, admite Viriato, “mas se lhe tapar o nariz normalmente vejo, porque reconheço os olhos e as expressões da testa. Como eles estão constantemente atrás do cavalete a olhar para mim, conheço a tensão que se vai acumulando na testa dos alunos e as línguas que se vão mordendo”.

O modelo tem o poder de facilitar ou dificultar o trabalho dos alunos e responder às reações que apreende de cada um deles. Um simples movimento altera a forma como o corpo é iluminado e consegue mudar  por completo o que o aluno está a ver, e consequentemente o que tem de desenhar. “Às vezes, estou muito relaxado e a tensão está toda neles porque, e eu percebo, eu estou aqui com uma torção, com um escorço e com uma luz e aquele indivíduo vai ficar louco”, lembra o modelo.

Mariana (nome fictício), também trabalha como modelo nu, e admite que tenta perceber as expressões dos alunos.”Conseguimos ter a perceção, porque o trabalho de modelo é um trabalho muito humano. E mesmo a forma de desenharem, há dias que estão melhores ou piores, portanto consegue-se perfeitamente ver”, explica.

O silêncio profundo inicial evolui para um burburinho mais relaxado. Já se olham os desenhos uns dos outros e partilham-se opiniões.

Beatriz e Catarina admitem que tiveram algum receio, antes da aula, de se sentirem desconfortáveis, mas que acabou por ser mais fácil do que estavam à espera.

A professora Cláudia Amandi explica que é normal nas primeiras aulas os alunos estarem mais tensos no inicio, mas com o tempo vão ficando mais à vontade. “Já me aconteceu anos em que os alunos dizem: ‘estamos na expetativa e estamos nervosos’, mas depois reagem muito bem. Se calhar alguns miúdos nunca viram um corpo do sexo oposto à sua frente e isso pode-lhes criar ali algum desconforto. Ao início calam-se todos, mas depois esquecem-se que aquilo é um corpo nu, as questões que eles têm que trabalhar estão acima dessa situação”.

É o olhar técnico de quem está “mais preocupado em ter o desenho direito do que mesmo ver o que está a desenhar”, diz  Catarina.

“Eles têm que fazer as medições, têm que saber a proporção exata do corpo, os equilíbrios do próprio corpo e quando são desenhos rápidos, eles nem têm tempo, só querem apanhar os movimentos certos”, lembra Mariana.

Medem minuciosamente a figura humana à sua frente. Os esboços, mais demorados, exigem mais atenção ao pormenor, mas nem sempre as proporções estão corretas. “Fazem sempre os mesmos erros: ou os ombros muitos largos, ou as pernas muito compridas…”, vai alertando a professora à medida que percorre a sala.

A representação da nudez

A reação à presença de um corpo nu depende e é deformada pelo contexto social, cultural, religioso, pela perceção individual de cada um e por uma panóplia de fatores que influencia a forma como cada um vê a figura à sua frente.

“Há pessoas que são naturalmente tímidas, por questões religiosas até , isso percebe-se muito por exemplo no próprio desenho, não tanto na reação, eu consigo perceber muito como é que uma pessoa reage no desenho”,  admite Viriato.

Por gosto ou necessidade?

Viriato começou a fazer de modelo para ajudar um amigo que estudava em Belas Artes, na altura ainda vestido. Foi em 1998 e encarou o desafio como uma forma de complemento à própria profissão, a de ator. “Eu na altura, há vinte anos, tinha um grande problema como ator que era não conseguir estar quieto. Era muito ativo, o que era um bocado contraproducente para mim”, explica o modelo. “Eu estou habituado à exposição como ator, ao facto de olharem para mim e de eu olhar para os outros. Essa relação interessa-me, eu não sou modelo só de ‘vou lá ganhar dinheiro’, isto para mim é uma forma de arte”.

Mas as motivações que levam muitos a experimentar a profissão nem sempre se relacionam com o gosto pela arte. Para muitos, a questão económica sobrepõe-se ao próprio à vontade em estar despido em frente a uma sala cheia. Os valores de remuneração rondam os 16 euros por hora, o que constitui uma alternativa viável a outro tipo de emprego.

“Eu sou um naturista, por isso, para mim, o estar nu é muito fácil, não me sinto exposto nem fragilizado pela minha nudez mas haverá quem, que eu sei que há modelos que sim, em que a questão é puramente económica”, admite Viriato.

Mariana também já teve situações caricatas, em que percebeu constrangimentos na presença da sua nudez. “Quando se trata de fazer medidas, de olhar, há um certo pudor”, explica. “Por exemplo, o ano passado  tinha uma aluna na Universidade do Minho, que ficava sempre nas extremidades, era muçulmana, síria. E ela nunca me desenhava quando estava de frente, quando tinha a parte púbica de frente. Eu achei estranho e por acaso perguntei aos professores se ela desenha o modelo masculino. Não. Ela pediu [a um elemento da sua comunidade religiosa], mas era completamente impossível desenhar um modelo masculino e comigo ela ainda tinha complexos de corpo”.

O pudor de olhar para a zona genital e até de reconhecer a existência dessa parte do corpo leva a transformações e deformações do corpo no desenho que vão de um extremo ao outro.

“Eu costumo dizer que eu em 50% dos casos sou assexuado”,  diz Viriato. “Sou um anjo, porque eles desenham-me até à zona da virilha e depois a partir do umbigo, portanto está tudo ao pormenor mas de repente ali tem uma mancha branca, não existe sexo, eles não conseguem desenhar, isso acontece muito no início do ano, depois a partir daí a coisa vai rolando”.

Outro tipo de deformação do corpo muito comum é a hipersexualização. “Uma vez vi um desenho que fazia parecer que eu tinha três pernas”, lembra o modelo.

Aulas de Figura Humana.

“A mesma pose para duas pessoas, uma ao lado da outra: num desenho eu sou um super-homem, em que sou híper volumétrico e no outro sou uma mulher lindíssima, com uma anca híper bem delineada, com seios, assexuado. Os mais femininos normalmente são os assexuados, são os que não olham para a zona genital e os volumétricos normalmente são os hipersexuais”, explica Viriato.

Mas o modelo acredita que a perceção do corpo nu tem vindo a progredir com o tempo. “A evolução que eu senti nestes quase 20 anos, é que nos primeiros anos, eu estava na aula, os alunos não falavam comigo, portanto, a partir do momento em que eu deixava de ser modelo, em que as luzes se apagavam, em que eu ia vestir a minha roupa, mesmo ainda dentro da sala de aula, o contacto era absolutamente nulo”

A própria evolução cultural e os mais recentes movimentos sociais em prol da desinibição do corpo contribuíram para atenuar o desconforto envolto da nudez humana.

“Nós agora estamos muito mais habituados ao corpo nu, estamos na vaga do bodypositive, o free the nipple, para homens e para mulheres, todas essas coisas. Portanto, eu acho que a relação com o corpo nu é muito mais natural, eu sinto-a mais natural nos últimos cinco, seis anos”, diz Viriato.

Das Belas Artes à Arquitetura

Do outro lado da cidade, os alunos do primeiro ano de Arquitetura também têm a sua primeira aula em que o corpo humano nu é o objeto de desenho.

“Os cursos de Arquitetura têm muita dificuldade”, afirma Viriato. “Eu sinto que são as aulas mais tensas, são sempre aqueles cursos em que eu tenho de ter uma atitude de quase obrigá-los a relaxar. Eles têm muito a noção de que nós somos um objeto. Em Arquitetura acontece mais isso porque eles estão mais a olhar para a pedra, portanto, de repente o corpo humano, aquela relação não é o que eles esperam, não têm essa perspetiva”.

Mas os alunos reconhecem a relevância de perceber as proporções da figura humana. “O nosso trabalho é construir para o ser humano e é importante saber desenhar aquele para quem projetamos”, lembra Carolina.

De volta às Belas Artes, “em escultura é o contrário, eles esperam o corpo humano, portanto as primeiras aulas são muito entusiasmantes. Os de pintura é a meio, porque o corpo humano, embora seja estimulante, é muito desafiante, a tridimensionalidade do corpo, o movimento, ao passar isso para uma forma bidimensional sente-se que há ali uma tensão, mas uma tensão positiva”, explica Viriato.

Aulas de Figura Humana.

Na FAUP, a sala está subdividida em duas. Em cada uma, um grupo de alunos dispõe-se em volta do modelo, de um lado um homem, do outro uma mulher. Desta vez não entram logo despidos, como acontece em Belas Artes, mas aos poucos vão revelando a sua nudez, gradualmente deixando o roupão descobrir-lhe mais um pouco do corpo, de pose para pose.

Algum desconforto transparece nas caras femininas quando têm o modelo masculino completamente despido à sua frente. “Quando o modelo ficou nu houve um primeiro impacto, um ligeiro incómodo mas à medida que a aula foi decorrendo comecei a sentir-me mais confortável e a encarar tudo com maior naturalidade”, admite Carolina.

“Em Arquitetura já tive algumas situações desagradáveis em que eu tive de impor a nudez como forma de força e mostrar-lhes que a minha nudez era superior à roupa deles”, lembra Viriato. “Eu estive em Guimarães, na faculdade de Arquitetura da Universidade do Minho, portanto, não sei se por ser um pólo mais regional, mais no interior, e notoriamente mais religioso, não sei se será uma questão geográfica, mas tive desde os risos, até uma miúda que esteve seis meses nitidamente a tentar provocar-me uma ereção, que é o proibitivo no homem modelo”.

Um olhar sobre a profissão

A exigência corporal desta profissão não pode deixar de ser referida. Desde as poses, ao tempo que elas exigem na mesma posição e a exigência mental e de concentração por parte do modelo, que são cruciais para todo o processo e trabalho.

Para Viriato existem três vetores importantes para o modelo: “um deles é o tempo, que é o mais importante”. O peso, é outro fator. Os suportes – porque às vezes há um suporte, ou dois ou três ou quatro e todos eles funcionam de maneira diferente – e ainda “o equilíbrio”.

Já Mariana diz ter que entrar em modo de concentração consigo mesma: “para me aperceber, como estava a mão, até mesmo para sentir os pés, quando são poses muito longas mexer ligeiramente os dedos, quando sinto que já estou a ficar com formigueiro e a circulação não se está a fazer. Mas não se pensa, a pessoa não pode divagar a mente, tem que estar consciente ali.”

Ambos assumem o esforço e a dificuldade física, mas acham que é uma questão de conhecer o corpo. Os truques para o combate ao cansaço e desgaste corporal são variados, desde mexer os dedos, pequenos movimentos musculares, pequenos balanços do corpo, rotinas diárias de alimentação, hidratação. As pausas entre as poses são cruciais, mas ambos concordam que o principal trunfo está na mente, no conhecimento do próprio corpo e seus limites.

Viriato falou ainda da falta de credibilidade da profissão em Portugal. Já tendo na bagagem a experiência de ter trabalhado como modelo no Reino Unido, diz que a diferença de tratamento e condições da profissão são enormes, salientando ainda que é preciso uma evolução do ramo profissional no país, pois melhora a qualidade do trabalho para todos, modelos, alunos e professores.

Artigo editado por Filipa Silva