Javier Valdez, um jornalista mexicano que noticiou as guerras de grupos de narcotraficantes durante mais de uma década, foi assassinado no dia 15 de maio. O assassinato ocorreu na cidade de Culiacán no norte do México. Foi o quinto jornalista morto no país, este ano.

Além do importante trabalho jornalístico, Javier já tinha escrito um livro acerca dos perigos de fazer notícias sobre cartéis de drogas e políticos corruptos. Chamou-lhe “Narcoperiodismo”, obra lançada no final de 2016. Depois de Miroslava, terceira jornalista assassinada este ano, ter sido morta, Valdez escreveu no Twitter “Matem-nos a todos, se essa é a sentença para se noticiar este inferno. Não ao silêncio.”

A coragem de Valdez tem longa história. Em 2011, o Comité de Proteção de Jornalistas premiou-o com o Prémio da Liberdade de Imprensa. O próprio Javier criou o órgão noticioso Ríodoce em Sinaloa, uma cidade impregnada de redes de narcotráfico. Ainda não existe uma versão clara da história da morte de Valdez.

Apesar do presidente, Enrique Peña Nieto, ter lamentado a morte do jornalista num tweet, muitos jornalistas mantêm-se céticos e não acreditam que algo mude. O presidente designou ainda a polícia federal para ajudar as autoridades locais na investigação deste crime que classifica como “ultrajante”.

Pedro Cardoso, um jornalista português que vive no México, explica que “com a morte do Valdez, a presidência teve um posicionamento forte e anunciou um programa para proteger jornalistas. No entanto, as associações de jornalistas do México dizem que tal nunca vai acontecer.”

Em 2016, Javier Valdez lançou o livro “Narcoperiodismo”. Foto: Javier Valdez/Twitter

O jornalista, que não escreve para órgãos de comunicação mexicanos, explica ainda que os repórteres trabalham sem organizações que os protejam. “Não há nenhum plano. O Valdez é apenas uma morte entre muitas. As declarações do presidente são mais um golpe de propaganda depois de uma morte.”

Como se pode ler numa notícia do mexicano Animal Político, entre 2010 e 2016, foram feitas 800 queixas de abusos contra jornalistas. Destas, apenas três resultaram em condenações. Cada ataque significa menos informação para o público mexicano sobre o que se passa no país.

“O que se passa são verdadeiros ataques aos direitos humanos”

Para melhor compreender o dia a dia dos jornalistas no México, o JPN contactou uma profissional de media que reside no país e trabalhou durante vários anos como editora de uma publicação.

A mexicana, que pediu para não ser indentificada, explica que é importante que se perceba que os jornalistas mexicanos não enfrentam opressão. “É um problema de outro nível”, esclarece. “Não é opressão, é violência. A opressão só pode existir se houver liberdade de imprensa e no México isso não existe. O que se passa com os jornalistas e com os cidadãos no México são verdadeiros ataques aos direitos humanos.”

Apesar disso, a profissional de media mexicana considera que o país tem levado a cabo “grandes conquistas tecnológicas” – só os direitos humanos têm ficado por terra na caminhada mexicana. “O México entra na categoria dos BRICS, ao lado do Brasil, Índia, Rússia, China e África do Sul”, lembra.

Para a mexicana, os temas tratados são os principais motivos que levam os jornalistas a serem perseguidos e ameaçados. “Existem três temas que levantam mais problemas aos jornalistas: corrupção, drogas e crime organizado”, explica a fonte do JPN. Apesar destes serem os temas que mais problemas podem trazer, a mexicana sublinha que os jornalistas de outras áreas também podem ser alvo de ameaças.

Pedro Cardoso, pelo contrário, defende que os jornalistas que são mais perseguidos são mesmo os que estão mais perto do narcotráfico. “O resto é tranquilo. É fogo de artifício. Distrai dos assuntos realmente importantes.”

O jornalista acrescenta que a zona do país onde exercem a profissão pode condicionar a segurança dos jornalistas. “Em Cidade do México e Guadalajara não há tanto perigo. No México, a criminalidade organizada é mais forte e violenta em determinadas áreas, como Sinaloa, de onde era Javier Valdez, Guerrero e Michoacán. São os sítios onde o crime do narcotráfico está mais implementado.”

“Só sobrevives, se tiveres muito cuidado”

Para os jornalistas que investigam casos de corrupção, drogas e crime organizado, sobreviver pode não ser tarefa fácil. Diversificar caminhos e rotinas e verificar se estão a ser seguidos, são preocupações diárias dos jornalistas mexicanos, explica Pedro Cardoso. “Só sobrevives, se tiveres muito cuidado.”

“Não é que as pessoas não se preocupem com a morte dos jornalistas, mas devemos compreender que por cada jornalista morto existem 400 civis assassinados”

A ex-editora que preferiu não ser identificada na entrevista ao JPN concorda com Pedro Cardoso. A segurança na internet é uma das suas maiores preocupações e explica que, tanto na vida profissional como na pessoal, tenta seguir algumas regras para não pôr a sua vida e a dos que a rodeiam em risco.

“São cinco as precauções que habitualmente tenho na internet. Não falo com quem não conheço através da internet. Uso diferentes níveis de encriptação. Não utilizo contas de e-mail gratuitas. Tenho muito cuidado com o que publico nas redes sociais. E não uso sistemas de armazenamento online.”

“Medo, repressão e ameaça”

Quando são alvo de perseguições, os jornalistas não têm a quem recorrer. “Ir à polícia é a última coisa a fazer quando estamos sob ameaça. Há um problema que é já não conseguirmos distinguir as associações criminosas do governo”, explica a mexicana.

Pedro Cardoso confirma que os jornalistas mexicanos que conhece sentem o mesmo. “O clima de medo, repressão e ameaça é constante. Não vem diretamente da presidência, mas de grupos associados”, garante o jornalista.

A polícia não protege os jornalistas porque, como Pedro Cardoso explica, as redes de narcotráfico confudem-se com os agentes da autoridade. “A todos os níveis: municipal, estatal e federal. Uma queixa ou um pedido de proteção, pode ser contraproducente”.

Para o jornalista português, o problema não se fica apenas pelo jornalismo. “Há um descrédito enorme quanto à polícia e instituições do estado em geral. Mais de 80% dos crimes nunca são investigados. Há uma grande impunidade”, descreve Pedro Cardoso.

Em 2016, o México foi considerado o terceiro país mais perigoso para jornalistas pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Pedro explica que apesar do México não estar numa guerra convencional declarada, está em estado de sítio. “A guerra não é civil, nem convencional, mas o Estado tem o exército nas ruas em vários locais do país. A propaganda estatal fala em guerra contra o narcotráfico, mas estão todos envolvidos nesta guerra.”

Panorama do jornalismo no México

Este ano já foram assassinados cinco jornalistas, no México. O elevado número de mortes está relacionado com os movimentos dos cartéis de droga. “As lutas internas e de território geram movimentos que podem levar a assassinatos. Também depende, obviamente, do que o jornalista publica. O Javier, por exemplo, era uma das referências do jornalismo de investigação sobre o narcotráfico”, conta o jornalista português.

“Todos os jornalistas são ameaçados, até os de cultura”, avisa a mexicana com quem o JPN falou, que acrescenta que “as ameaças são a menor das preocupações. O mais grave é quando se passa para a agressão violenta e assassinato.”

E “para as mulheres jornalistas a situação é ainda pior. Existem muitas pressões relacionadas com violência sexual”, sublinha.

Na opinião da mexicana, o povo tem uma descrença face ao jornalismo, o que não permite que os jornalistas tenham meios financeiros para superar os obstáculos. “Semelhante ao que aconteceu depois do 25 de Abril português”, compara. “Não é que as pessoas não se preocupem com a morte dos jornalistas, mas devemos compreender que por cada jornalista morto existem 400 civis assassinados”, estima para tentar explicar o desapego dos mexicanos ao jornalismo.

As condições precárias em que os repórteres operam contribuem para a perigosidade do trabalho jornalístico no México. “As reportagens sobre droga e corrupção são as que rendem mais, por isso manda-se os jornalistas para sítios cada vez mais perigosos. Os jornalistas cedem porque as condições são precárias em todo o lado”, conclui.

Artigo editado por Filipa Silva