Um conversa mensal com um poeta que escreve na atualidade. É esta a proposta, desde outubro de 2014, para o projeto “Poeta que sou”, iniciativa do Olimpo Bar, espaço cultural na Rua da Alegria, no Porto, que, sempre à quarta terça-feira de cada mês, promove ciclos de conversas informais, intercaladas com leituras de poemas dos poetas convidados. A conversa é sempre moderada por Luís Beirão, diseur e gestor do espaço, e o público é também convidado a participar no evento, sendo que em cada sessão são sempre facultados poemas dos escritores convidados em cada mesa do bar.

António Pedro Ribeiro, um dos poetas já convidados do "Poeta que sou" no Olimpo Bar

António Pedro Ribeiro, um dos poetas já convidados do “Poeta que sou” no Olimpo Bar

Ao que o JPN apurou junto da organização do espaço, trata-se de um evento onde os poetas convidados “têm toda a liberdade para organizarem a sessão à sua imagem”, ou seja, “podem juntar a música ou outras artes para a apresentação da sua obra”, de modo a tornarem o evento mais apelativo ao público. Os poetas que, atualmente, escrevam, podem candidatar-se a ser o próximo convidado das sessões, sejam eles já literariamente publicados ou não. Podem, para isso, endereçar os seus poemas para a organização, através do e-mail olimpo.cafe.bar@hotmail.com.

“É uma iniciativa muito interessante. Quando participei foi mais uma forma de divulgar o meu trabalho enquanto poeta. O evento também possibilita o debate com o público e essa vertente é, sem dúvida, muito benéfica”. Palavras do poeta portuense, de 47 anos, António Pedro Ribeiro, licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), autor de 13 livros alternados entre prosa e poesia, e o primeiro escritor convidado da iniciativa.

“Praia”, poema de Vitor Carvalhais

Templo de Luz,
Paz e silêncio
Onde o sol cintila grandioso
e as pedras reluzem, silenciosas
Imersas e recortadas pelo cristal das águas.
Eis-me aqui sentado
no areal desta praia
e é como se tudo emudecesse,
como se ausente
E a única realidade fosse
O estar aqui presente.

Vitor Carvalhais, um dos poetas convidados da iniciativa "Poeta que sou"

Vitor Carvalhais, um dos poetas convidados da iniciativa “Poeta que sou” D.R.

O também poeta portuense Vitor Carvalhais, de 40 anos, e outro dos passados convidados do ciclo de conversas, subscreve a opinião de António Pedro Ribeiro, e acrescenta que procurou “desmistificar o que estava por trás” dos seus poemas com o público presente: “A experiência foi muito positiva. O diálogo estabelecido com o público também foi muito importante para mim, e também gostei de ter havido pessoas a conhecer, pela primeira vez, os meus poemas. É uma boa forma de divulgar a poesia além dos livros. O autor coloca-se ali a nu. Fala das suas virtudes e fraquezas, e põe-se como uma pessoa comum entre todas as outras”, sublinha.

Apesar da boa experiência que guarda da sessão em que participou, Vitor Carvalhais assume que, apesar da ocorrência de uma tertúlia acesa na sessão, “eram poucas as pessoas presentes no público”. O poeta explica esse acontecimento pelo facto de, hoje em dia, as pessoas “preferirem muito mais os eventos de massas” ou aqueles onde os autores convidados já são “reconhecidos ou mediatizados”.

Sobre a falta de público nestas iniciativas, a organização é categórica: “As pessoas têm cada vez um interesse menor na Cultura. A sociedade atual prefere sempre ir a locais com público já garantido, e isso não é necessariamente um sinónimo obrigatório da qualidade dos espetáculos. As pessoas devem ser mais educadas nesse sentido, de terem interesse de se cultivarem e conhecerem a obra também de artistas que ainda são pouco conhecidos”.

Luís Beirão, apresentador da iniciativa, em conversa com uma das poetisas já convidadas, Teresa Teixeira

Luís Beirão, apresentador da iniciativa, em conversa com uma das poetisas já convidadas, Teresa Teixeira D.R.

O Olimpo Bar é um espaço muito dedicado à arte da poesia, tendo, além deste evento, outros subjacentes à mesma temática. Na terceira quinta-feira de cada mês, há lugar para “Poesia de choque”, que já conta com mais de 70 edições. O projeto define-se a si mesmo como um veículo de poesia “para maiores de ideias”, onde em cada sessão Luis Beirão e António Pedro Ribeiro lêem poesia da sua autoria e de outros poetas, como Charles Bukowski, Joaquim Pessoa, Jim Morrison, Fernando Pessoa ou Mário Cesariny.

Todas as quartas feiras, e há mais de três anos, o espaço também convida todo o público a participar nos seus serões de leitura livre de poesia. Qualquer pessoa pode ler e as temáticas ficam sempre a cargo dos leitores.

Um poema de Conceição Bernardino, in “Identidades”

Não há relógios neste país nem mártires da liberdade,

só estátuas partidas

e animais que comem a sombra diurna dos demais.

Pernoito ao relento neste resoluto escopo

onde voltarei a içar cravos

e a caligrafia dos pássaros.

Os poetas já falecidos não ficam também esquecidos pela organização destas iniciativas. Às segundas terças feiras de cada mês, e desde janeiro de 2013, é escolhido um poeta consagrado, numa iniciativa denominada “Poeta que foi”, que, ao longo de cada sessão, leva Luís Beirão a explicitar dados biográficos e bibliográficos sobre os poetas escolhidos. Camilo Pessanha, Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Bocage, Ary dos Santos, Almada Negreiros, Luiza Neto Jorge e Eugénio de Andrade são exemplos de alguns poetas já homenageados nestas sessões, sempre alternadas com leituras de poemas, por vários diseurs convidados.

A próxima poetisa convidada para o evento “Poeta que sou”, no mês de junho, é Conceição Bernardino, de 46 anos, que, na próxima terça-feira, às 22h, irá falar sobre a sua vida, obra e influências pessoais. “A minha expectativa para o evento é muito positiva. Acho que é uma boa forma de dar voz aos novos poetas, que, muitas vezes, não a têm. Só os autores mais conhecidos das grandes editoras é que têm mais visibilidade. Com este tipo de eventos espero que a minha literatura tenha mais impacto diante dos leitores, porque o povo português, muitas vezes, só quer saber do que vem do estrangeiro e esquece-se de dignificar o que fazem os seus artistas nacionais”, comenta, ao JPN, a escritora portuense, autora já de quatro livros de poesia.