Em Luanda, nasceu como Ndalu de Almeida, mas é sob o nome de Ondjaki que assina os livros. Já publicou contos, romances e poesia, para miúdos ou graúdos. Ganhou o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007, com “Os da Minha Rua” e, em 2013, o Prémio José Saramago, com “Os Transparentes”. Todos editados em Portugal pela Editorial Caminho.

Esta quarta-feira esteve na Póvoa de Varzim – por onde já passou por mais de duas dezenas de vezes – para apresentar “O Convidador de Pirilampos”, um conto que nasce de uma estreita colaboração com o ilustrador António Jorge Gonçalves, com quem já tinha partilhado “Uma Escuridão Bonita”. Luanda está sempre presente. E é para Angola que o escritor, que vive no Brasil, quer ir em breve.

Neste livro, e na maior parte das suas obras, volta recorrentemente a Luanda. Que relação tem com a sua terra natal?

É a cidade onde eu nasci. Não moro neste momento em Luanda, mas ela representa uma matriz emocional muito forte. E se eu recuo sempre que escrevo sobre a infância, obviamente que a infância vem cheia de Luanda. Também o meu presente, às vezes, vem cheio de Luanda: uma Luanda de saudade, uma Luanda do passado, não é a atual. E penso que isso chega à escrita de uma maneira um bocadinho mais melancólica, mas é normal. É normal que as coisas do passado se transformem e voltem com outra capa. Luanda, para mim, é um lugar de referência afetiva, sobretudo.

A corrupção é o maior de todos os males existentes em Angola? Ou há pior?

Eu penso que a corrupção é um mal que afeta o mundo e, portanto, também afeta Angola. Tal como a desigualdade social. É claro que a corrupção e os problemas de pouca transparência na gestão da coisa pública fazem com que a desigualdade social seja um pouco mais elevada do que seria de esperar num país com o nível potencial de riqueza que Angola tem. A corrupção é um dos grandes problemas que Angola tem, sim.

O livro “O Convidador de Pirilampos” faz parte das “Estórias sem luz elétrica” e retoma o imaginário de uma infância vivida em Angola. Foto: Beatriz S. Pinto

Quando Luaty Beirão veio a Lisboa para apresentar o seu livro, disse que em Angola “os cidadãos foram treinados e desincentivados de pensar e de agir”. Concorda?

Penso que estamos numa fase de refletir, de facto, sobre o papel do cidadão angolano. O processo que foi desencadeado com a prisão e a maneira como o Governo não soube lidar com a prisão dos 15+2, nesse aspeto, felizmente, trouxe uma nova reflexão sobre questões de política, de direitos humanos, de direito do cidadão. Houve uma oportunidade social causada por essa prisão para refletirmos quem somos nós, enquanto cidadãos. Nesse sentido, os jovens como Luaty e os seus companheiros tiveram um papel preponderante para trazer ao debate questões muito fortes. Cabe-nos fazer uma reflexão sobre o papel da nossa liberdade e o papel da nossa intervenção para a construção de um novo conceito de liberdade em Angola.

Ainda sobre a política angolana, o que pensa das eleições presidenciais de agosto e do candidato anunciado?

Todos os angolanos têm o desejo de que o novo candidato opere mudanças. É do mesmo partido, foi indicado pelo Presidente da República atual e, portanto, deverá haver algum seguimento na linha de trabalho do presidente. Este novo candidato – ele é candidato, mas provavelmente será o presidente – espero que seja uma pessoa que tenha consciência dos novos tempos, do que a juventude precisa, do que o povo precisa. E a sociedade civil também terá de trabalhar pelos seus canais normais e anormais para pressionar o Governo para que se torne mais democrático do que aquilo que tenta ser.

E de que é que Angola precisa?

O que Angola precisa é de uma maior qualidade de ensino, de uma melhor distribuição da riqueza, que é do Estado, e que, sendo do Estado, não tem de ir para as pessoas que trabalham para ele, mas sim para os serviços públicos. É assim que a riqueza chega às pessoas: se for empregue nos canais do Estado que servem a população. Angola precisa de muita coisa. Precisamos de rever os nossos conceitos de liberdade, de direitos humanos, de consciência política. E essas questões só são elevadas com uma maior escolaridade: não é só haver mais escolas, é a qualidade do ensino. Isso são só alguns dos problemas que posso enumerar aqui, poderia enumerar 94 problemas.

Que futuro vê para o país?

É dever da nossa geração – estamos na segunda, terceira geração após a independência e está a surgir a primeira geração após a guerra que acabou em 2002 – ter empenho em ser otimista. O futuro cabe-nos a nós fazê-lo, mas também esperar que seja melhor, que seja novo. O futuro não é novo só porque amanhã é um dia novo. O futuro é novo de acordo com aquilo que semeamos hoje. E eu acho que há muita gente, sobretudo gente cultural – gente artística, jornalistas, jovens – que estão a plantar novas sementes. Demora, não é daqui a cinco anos. Mas daqui a 15, 20, 30 anos, vamos ver essas sementes a florirem com outras cores. Essa é a cor do futuro.