Há uma sala atrás da redação do JornalismoPortoNet (JPN) onde reina a barafunda. Ouvem-se dedos a bater nos teclados dos computadores, pessoas a pedir cabos para passar vídeos para os portáteis, som das entrevistas que passam nos ecrãs, gente que chega de reportagem e gente que parte para reportagem. São três da tarde, o calor aperta, e ninguém aqui parece ter dúvidas do que tem para fazer.

Esta é a turma de Géneros Jornalísticos do curso de Ciências da Comunicação e da Cultura da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT), em Lisboa. Durante três dias, invadiram as instalações do JPN para investigar, produzir e publicar reportagens multimédia no site portuense de informação.

O projeto tinha começado no início do segundo semestre. Foi proposto aos alunos a ideia da ida à redação do JPN, com reportagens iniciadas em Lisboa e concluídas no Porto. A ideia era ter um contacto real com o trabalho no terreno e numa redação.

“Muitas vezes as universidades têm falta de ligação ao mundo laboral. Só que o jornalismo lida com os problemas das pessoas, não podemos fazer jornalismo sentados numa sala de aula ou na secretária de uma redação”, dizia Ricardo J. Rodrigues, jornalista e professor que promoveu a iniciativa. “O JPN é um jornal online regional que começou por ser um projeto universitário e se foi profissionalizando. Foi muito bom poderem acolher-nos. Ainda mais porque são francamente bons no jornalismo multimédia, uma área que precisa cada vez mais de gente.”

Ana Isabel Reis, diretora do JPN e professora de jornalismo na Universidade do Porto, diz que “esta é uma troca fundamental para todos podermos crescer. Alunos, professores e os profissionais de comunicação social que aqui trabalham. São iniciativas como esta que nos devolvem o gosto da profissão e o gosto pelo jornalismo”. E referiu que o acolhimento à turma da Lusófona revelou-se um verdadeiro intercâmbio. “Se por um lado o JPN já tem uma estrutura montada, por outro os alunos da Lusófona trazem metodologias e trabalhos novos.”

Os temas foram escolhidos pelos alunos, sendo que estes tiveram o objetivo de abordar áreas diferentes e originais, fugindo ao normal, desafiando assim as suas próprias capacidades e elevando fasquia com histórias em texto, fotografia, vídeo e áudio.

Jornalismo: “Estamos exaustos, mas felizes”

E as ideias foram aparecendo: as dificuldade das vidas das mães adolescentes,  a inserção de deficientes na vida ativa, as histórias dos veteranos que sofrem stress de guerra, os novos modistas, a tensão e a expectativa que existe nos campeonatos infantis dos clubes de futebol de bairro, a angústia das mulheres dos pescadores, os programas de animação para crianças com cancro no IPO do Porto, a arte dos artistas de rua ou perceber como funciona o primeiro banco de recolha de óvulos e espermatozóides do Porto.

Estas eram as ideias, e no Porto foram investigadas no terreno. A Mafalda Pereira e a Mariana Baptista, por exemplo, passaram um dia no IPO do Porto a tratar um tema que na maior parte das vezes arrepia: o cancro infantil. “Achávamos que íamos encontrar tristeza e afinal fomos parar a uma casa cheia de alegria”, diz a Mariana. “E isso foi uma grande lição de jornalismo. Perceber que não podes ter ideias feitas, tens de ir ao terreno verificar tudo”. O Francisco Dionísio, que trabalhou o tema dos cidadãos com deficiência, aprendeu isto: “Não há nada como estar no terreno, trabalhar na redação, criar a autonomia de que precisamos para podermos ser jornalistas. Foi uma experiência magnífica».

À medida que os dias avançavam, as equipas voltam de reportagem e chegava a hora de editar os ficheiros de vídeo e áudio, além de escreverem as peças. O corrupio dentro das salas 104, 107 e 108 do edifício onde funciona o JPN era incrível. Filipa Silva e Rita Neves Costa, as editoras do JPN, pareciam ter oito braços cada uma, ajudando a editar textos, galerias de imagem, vídeos. Horas antes tinha havido uma formação sobre como usar câmaras, fazer fotos, gravar som e imagem, mas na hora da verdade sobravam as dúvidas. Um inacreditável espírito jornalístico enchia o ar.

Foram horas e horas de trabalho, condensadas em três dias intensos. Desde o início do semestre que os alunos tinham começado contactos e entrevistas, muitos trabalhos misturavam histórias de Lisboa e Porto, mas na reta final foi preciso acelerar para conseguir ter tudo pronto a tempo. É justo, a pressão faz parte do ofício. “Estamos exaustos mas felizes”, dizia no fim de tudo o João Magalhães, um dos alunos. “Foi trabalhoso, mas quando vemos os resultados tudo vale a pena. Isto sim, é ser jornalista. Até trabalhar contra o tempo”.

No regresso a casa, um grupo inteiro de alunos tinha-se transformado em redação de jornalistas. E tinha aprendido o que dissera Ana Isabel Reis, que “toda a gente tem histórias e elas podem estar onde menos se espera, até no trajeto entre o metro e a faculdade”. Saber olhar e saber ver, também foi isso que os alunos perceberam. E sentiram o que no início da viagem dizia Ricardo J. Rodrigues, professor da Lusófona: “O jornalismo é o melhor ofício do mundo.”