Nos corredores da Casa da Música, minutos antes do início do espetáculo, uma espanhola pergunta onde é a Sala Suggia. Estrangeiros e portugueses, de todas as idades, sozinhos ou acompanhados, sobem a escadaria que dá acesso à sala onde assistirão ao tão aguardado concerto.

A fila para entrar não é longa e a rapariga de lábios pintados de rosa chiclete, que passa os bilhetes num pequeno monitor, não se demora. O aviso sai repetido: não é permitido fotografar.

Às 21h35, as luzes baixam e o ruído de fundo dá lugar ao silêncio. No palco apresentam-se quatro homens diante de uma plateia lotada. “Change” marca o início de uma viagem emocional, no palco e fora dele.

Entusiasmado, o intérprete cantarola de olhos fechados. De sorriso no rosto deambula pelo palco. A audiência exalta de euforia. Salvador fala na língua de “nuestros hermanos” para dizer que “temos que sorrir sempre” e termina com um “viva la fama” com direito a uns berros. O momento que mais parece um devaneio arrepia de tão belo.

“Agora que estás no Porto podes dizer as caralhadas que quiseres”. A confidência de Salvador ao público é nada mais nada menos que uma transcrição do que uma senhora lhe dissera antes do espetáculo. A plateia ri, animada com o sentido de humor do jovem.

Salvador parece à vontade a cantar “Presságio”, cujo poema é assinado por Fernando Pessoa. Tão à vontade que leva as mãos aos bolsos das calças. A composição musical é resultado de uma parceria com o pianista em palco, Júlio Resende, projeto a que chamaram “Alexander Search”.

Constrangimentos não são o forte do artista e isso agrada a Ivana Duarte, que veio de Santa Maria da Feira. O que Ivana mais aprecia é “o facto de ele ser tão imprevisível.” A jovem que se faz acompanhar do irmão explica: “acho que ele é único e que isso é que faz dele especial.”

Os movimentos de “air guitar” não são raros, bem como as vocalizações e os gestos com as mãos a que nos habituou. No centro do palco, junto ao piano há uma cadeira onde o músico se senta de vez em quando. O seu corpo não para de baloiçar. Está à vista que a música lhe toca a alma. A ele e às mais de mil pessoas que assistem ao concerto.

Uma senhora com quem falamos veio de Santo Tirso para assistir e diz gostar da “maneira dele de ser”. A acompanhá-la traz duas filhas e o neto Duarte, que embora de tenra idade, já toca guitarra e gosta das músicas de Salvador. Se pudesse assistia a outro concerto, confessa o menino de 8 anos.

Um contentamento geral paira na sala que, sendo requintada, está envolvida num clima despojado.

“Excuse me” é a composição musical que se segue e a denominação é precisamente a do disco de estreia do vencedor do Festival Eurovisão. O intérprete anuncia que o “videoclip está foleiro, foleiro” dado que segundo o próprio, não tem jeito para essas coisas.

“Há aqui gente a chorar”

Os espectadores não se cansam de aplaudir e de soltar assobios e não se coíbem de o fazer a meio da música. Salvador parece embriagado pela música, como se ela o transportasse para um mundo paralelo. Dany Duarte, irmão de Ivana, reconhece que é “a forma como ele vive a música e como ele sente o que está a fazer” que mais lhe agrada no artista.

Quando Salvador interpreta uma música romântica, de olhos fechados, vislumbram-se na audiência rostos serenos, também eles de olhos cerrados. Ouve-se do fundo da sala uma voz que diz: “isto é lindíssimo”. O rosto do artista irradia felicidade. A mesma voz intervém de novo: “há aqui gente a chorar”. Ao qual Salvador responde: “isso é bom sinal”.

O público solta uma gargalhada geral quando o jovem diz que a canção que se segue foi escrita por alguém que lhe “é especial e que tem bom coração… A todos os níveis.” Podia ser humorista este intérprete cuja presença em palco é extraordinária.

Salvador partilha com a sala que a pessoa de quem fala, o contrabaixista André Rosinhas, lhe dissera no dia anterior uma frase que o marcou e que segundo o próprio “vale mais que mil eurovisões ganhas”: “Salvador não é um cantor, Salvador é um músico.”

A verdade é que ele transparece uma grande musicalidade. Frenético, balança o corpo e incita o público a “jogar um jogo”. Num ápice o grande coro canta em uníssono. Feliz, reconhece, depois de um “yeah” entusiasta, que ”no Norte são muito mais musicais do que em Lisboa.”

“Chegou aquele momento”

Como prémio pela interação, a plateia recebeu uma música em “primeira mão”, nunca tocada ao vivo. Já canta há mais de uma hora. O pianista levanta-se e com as mãos faz sons no interior do piano, que Salvador acompanha com um som idêntico a um trompete, produzido pela voz e ilustrado com as mãos junto à boca. Os movimentos que faz repetidamente com as mãos contagiam os presentes e já há quem as mova, inquieto.

“Chegou aquele momento, o nosso momento” anuncia Salvador. “Já não é um momento que me pertence, pertence a todos nós.” O povo bate palmas efusivamente. “Onde eu sou verdadeiramente feliz é aqui”, diz o músico, referindo-se ao palco.

Salvador apelida a “Amar pelos Dois”, que fez de nós, portugueses, pela primeira vez vencedores da Eurovisão, como “a canção mais bonita deste século”. “Cantemos a uma só voz”, pede o artista. A plateia, orquestrada pelo músico, canta. A claridade intensifica-se no público e na última fila alguém balança os braços ao som da música. O público levanta-se para aplaudir.

Duas horas depois do início do concerto, os músicos saem do palco, a música cessa e as luzes do palco apagam-se. As palmas e os assobios não param, ainda que o palco esteja vazio.

Salvador volta e canta no escuro, até que entra Júlio Machado Vaz para declamar um poema de Sophia de Mello Breyner. Quando termina, sai de cena e volta o artista. Sentado ao piano, diz que vai tocar “para irmos embora de coração um bocadinho mais leve”.

Quando a atuação termina o convidado e os músicos entram. Os vinte segundos para fotografar que Salvador prometeu quando pisou o palco começam bem antes de ele dar sinal. Como ele próprio dissera: “naqueles vinte segundos somos pessoas do nosso século”, de telemóvel empunhado no ar. Palmas, assobios e uma plateia inteira de pé em ovação.

Teresa Resende, do Porto, confessa: “foi dos melhores concertos que eu vi em toda a minha vida. Há uma calma, uma nostalgia, uma alegria, um equilíbrio… Gostei muito.”

O filho que carrega nos braços, João, diz timidamente que também gostou.

Ana Pereira, residente no Porto, emocionou-se. “O sentimento com que canta. De alguma forma a voz dele chega-me à alma e faz festinhas na alma, emociona”. E acrescentou: “Adorei, emocionei-me imenso. Foi algo transcendente, foi puro, foi magia, foi sentimento. Ri-me, chorei, emocionei-me, senti, vibrei, adorei, adorei.”

Queria assistir ao segundo concerto, mas quando tentou já estava esgotado. Mas há um “encore” desta passagem pelo Porto. Salvador Sobral regressa à Casa da Música a 18 de julho.