A amizade começou em 1965 quando Arnaldo Saraiva, ainda jovem, decidiu escrever a Agustina Bessa-Luís a partir do Brasil.

À escritora, já então com uma dúzia de romances publicados, disse estranhar como a sua obra era ignorada por autores e críticos do outro lado do Atlântico. Agustina respondeu, enviando alguns livros que Arnaldo Saraiva distribuiu.

Dois anos depois, conheceram-se pessoalmente em Lisboa. Quando Arnaldo Saraiva se mudou para o Porto, onde faria o seu doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), a amizade de ambos fortaleceu-se e perdurou.

Passadas várias décadas, já como docente da FLUP, Arnaldo Saraiva achou que era altura de “dois grandes escritores do Porto” terem “a honra de ser honoris causa da Universidade do Porto”, particularmente, porque ambos não tinham estudos universitários, conta o agora professor emérito de 80 anos ao JPN.

Estávamos em 2005 e a proposta do docente foi acolhida por unanimidade. A 22 de março desse ano, a UP agraciava Eugénio de Andrade [1923-2005] e Agustina Bessa-Luís. A saúde de Eugénio de Andrade não permitiu ao poeta estar na cerimónia – viria a falecer três meses depois -, mas Agustina esteve e “ficou muito contente”, segundo recorda Arnaldo Saraiva.

“Embora a Agustina fosse sempre muito discreta, ela gostava de reconhecimento, mesmo que parecesse um pouco desligada desse reconhecimento. Ela recebeu vários prémios, o mais importante de todos o [Prémio] Camões, mas curiosamente disse-me um dia que gostava dos prémios porque davam dinheiro (risos)”, conta o poeta e ensaísta.

“Um prémio não ajuda a escrever melhor, nem valoriza a qualidade de uma obra – ou a obra tem ou não tem – ela tinha essa consciência e esse desprendimento”, completa.

Recordar a cerimónia académica no dia em que Agustina faleceu no Porto, aos 96 anos, deve fazer a universidade “orgulhosa por ter a maior escritora de sempre que já houve em Portugal como sua doutora honoris causa”, afirma Arnaldo Saraiva.

“A mais fecunda” da literatura portuguesa

Sobre a autora de “A Sibila”, Arnaldo Saraiva destaca, em primeiro lugar, “a extensão da obra”: “É a escritora mais fecunda da literatura portuguesa”, sentencia.

“Independentemente até da qualidade – e eu acho que foi a maior autora que já apareceu em Portugal -, ela tem uma obra extensíssima. Dezenas de romances, de contos, teatro, literatura infantil, de crónicas”, enumera o professor aposentado da FLUP.

E era extensa, explica, também porque a autora “escrevia muito rapidamente e sem emendas”, sublinha. O facto causa a Arnaldo Saraiva alguma reserva, porque se em muitos dos romances de Agustina o poeta encontra “páginas incríveis”, prontas para “figurar na melhor literatura de qualquer país”, outras deixam-no reluntante: “Era como se ela não relesse”, reflete.

É por isso que diz aderir “sempre ao todo” de um romance de Agustina, com o pensamento de que, se pudesse, “isolaria, em vários desses romances, muitas páginas inesquecíveis, que, às vezes, podem representar todo o romance”.

Dona de “uma prosa muito envolvente”, a escritora que se estreou em 1948 com “Mundo Fechado” escrevia “como ia pensando”, porque “ela é uma contadora de histórias e, às vezes, conta-as como se conversa, por associações de ideias ou de factos, com imprevistos que não obedecem a esquemas”.

Arnaldo Saraiva resume desta forma: “A escrita dela é derivante. Quando a gente espera que caminhe para um lado, ela vai para o outro, porque se encadeiam várias coisas, vários pensamentos, que ocorrem à medida que ela vai narrando”. “Em Agustina muitas vezes não há uma história, mas vária encadeadas”, por uma autora que não se coíbe de comentar o que narra, “como fez Camilo [Castelo Branco]”, que Agustina admirava.

Face a Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires ou mesmo José Saramago, “nomes fortes da ficção portuguesa do século XX”, Agustina tem assinatura própria na sua literatura: “É a personalidade dela que preside à escrita, não um compêndio de leis narrativas”.

Mulher “forte e sábia”

Agustina Bessa-Luís não frequentou a universidade. Aliás, conta Arnaldo Saraiva, nem chegou “a fazer o exame oficial do 5º ano do liceu”. E, no entanto, era “uma mulher muito sábia, daquela sabedoria simultaneamente popular e culta. Ela aprendeu muito e sabia muito”, diz ao JPN. Como? “De ouvir, de ver e de ler desde tenra idade”.

Observadora exímia, enaltecem-lhe o modo profundo como parecia conhecer as pessoas. E Arnaldo Saraiva aponta-lhe outra particularidade: “Era uma extraordinária cozinheira”, confessa a sorrir.

“Fazia doces que era bom saborear e eu tive a sorte de comer alguns. Já os doces da literatura… muitas vezes não pareciam muito doces, não é? Pareciam um pouco ácidos ou enrudilhados. Esses doces vamos poder continuar a comer”, brinca.

Outra das suas particularidades era a dimensão muito reduzida da letra com que escrevia no papel, sem margens superiores ou laterais. “Ela metia um romance que, impresso, tinha 300 páginas, talvez em 30 páginas manuscritas numa letrinha muito apertada que ocupava toda a linha sem margens”, conta Arnaldo Saraiva.

“Uma vez perguntei-lhe: Agustina, aproveita tanto o papel de cima abaixo, da margem esquerda é direita… Isso é por ser forreta ou por algum outro motivo? E ele respondeu: ‘nunca pensei nisso, mas acho que explicação é esta’”.

E a explicação era que a escritora tinha ficado impressionada quando, ainda criança, no internato, as freiras pediam às meninas para guardarem as sobras dos cadernos, no Natal, para oferecerem esses restos às orfãs de um colégio das proximidades. “Ela disse que ficou muito impressionada com isso e se apercebeu do valor que o papel tinha”. Os tempos eram outros. O país, francamente pobre.

Afastada da ribalta desde 2006

Um AVC, em 2006, acabou por afastar Agustina Bessa-Luís da vida pública. Arnaldo Saraiva também passou a vê-la com menor frequência. Mais ainda depois da morte do marido de Agustina, Alberto Luís, de quem o professor da UP também era amigo e que faleceu em 2017, aos 94 anos.

Foi o companheiro de toda a vida de Agustina Bessa-Luís, o homem que ela conheceu depois de ter colocado um anúncio no jornal “O Primeiro de Janeiro” – de que viria a ser diretora – à procura de um homem culto para se corresponder. Acabaria por casar com o estudante de Direito em 1945. Foi Alberto Luís quem, durante muitos anos, se ocupou de datilografar a letra pequenina de Agustina.

Agustina Bessa-Luís, nascida em 1922 em Vila Meã, Amarante, e falecida esta segunda-feira, no Porto, aos 96 anos, escreveu meia centena de romances, peças de teatro, contos, crónicas, memórias, textos biográficos e ensaísticos, também infantis. Com a sua extensa obra conquistou inúmeros prémios e condecorações e teve várias das suas obras adaptadas ao cinema, sobretudo pelo amigo de longa data, Manoel de Oliveira [1908-2015].

O corpo da escritora vai estar em câmara ardente esta terça-feira, a partir das 10h30, na Sé do Porto, onde haverá uma missa de corpo presente às 16h00. Depois da cerimónia, “o corpo seguirá para o cemitério do Peso da Régua, onde será sepultado na intimidade da família”, lê-se no comunicado publicado na página do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.