Greta Thunberg colocou as alterações climáticas na ordem do dia, criando um movimento estudantil internacional que chamou a atenção de milhões de pessoas. A primeira Greve Climática Estudantil em Portugal ocorreu a 15 de março deste ano. No Porto, a manifestação na Avenida dos Aliados evoluiu para uma marcha pelo clima no dia 24 de maio, e já a 27 de setembro, a marcha alargou-se a uma Greve Geral pelo ambiente.

David Amorim tem 18 anos e estuda História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É um dos organizadores do movimento em Portugal e, em entrevista ao JPN, defende que o ambiente é um tema que tem de estar em cima da mesa: “há muita gente que pensa que o ambiente é apenas a questão ambiental, mas não”. Para o ativista, o problema é também económico, social e cultural.

Greve pelo Clima a 27 de setembro.

Greve pelo Clima a 27 de setembro. Foto: Pedro Miguel Oliveira

“Temos pessoas que estão a ser altamente afetadas por mudanças climáticas, pela forma como os seus governos lidam com a questão ambiental”, aponta. A “forma como nós, enquanto sociedade, somos passivos ou não para com os grandes temas” é, na visão do jovem, determinante até para influenciar as prioridades dos governos, que muitas vezes se centram em debater os assuntos, sem pensar na forma ou capacidade de resposta aos mesmos.

“Cada vez mais se fala do conceito da Europa unida, a União Europeia – mais do que o ambiente ou os refugiados, há que pensar na União Europeia enquanto mecanismo para responder a isto tudo”, afirma ainda.

A Greve “conseguiu abrir uma brecha”

Quanto ao impacto da Greve Climática Estudantil em Portugal, é dado muito crédito à internet: “o grande boom da Greve Climática Estudantil deu-se quando a divulgámos nas redes sociais.”

Um dos maiores medos da organização era a falta de adesão, mas as respostas foram tão positivas que rapidamente se criaram núcleos no Porto, Lisboa e Coimbra. Agora, três greves e oito meses depois, a maior conquista para David Amorim foi trazer o assunto para cima da mesa e recuperar a atenção e reação dos jovens portugueses.

“O impacto do movimento a nível internacional ainda é mais óbvio”, afirma, lembrando que tudo começou com apenas uma adolescente sentada à porta do parlamento sueco. “Agora não é só a Greta [Thunberg], é muita gente, são muitos países, milhões de jovens.

“A Greve Climática Estudantil era muito olhada de lado”, relembra o ativista, concluindo que foi após o encontro no Ministério do Ambiente e o sucesso das manifestações que o movimento ganhou a consideração das pessoas e “conseguiu abrir uma brecha no sistema.”

O número de jovens que participou na greve espelha o impacto e sucesso da causa, sendo que a polícia estimou 500 jovens na primeira greve e seis meses depois, a 27 de setembro, o Porto recebeu 5 mil pessoas.

Greve Geral pelo clima a 27 de setembro. Foto: Pedro Miguel Oliveira

O estudante salienta que não são só os jovens que apoiam a causa: “Ninguém me venha dizer que o ambientalismo surgiu desde que o PAN se sentou na Assembleia, porque é completamente mentira.” David Amorim relembra que em Portugal existem associações, como a Climaximo, que fazem trabalho nesta área há anos: “mas nunca foram trazidos para cima da mesa – até agora”, afirma com satisfação.

Apesar de toda a luta e insistência por parte de várias associações, David Amorim considera que “o Governo pode tentar fazer muita coisa, mudar muitas leis, mas a maioria são só leis de fachada e na verdade não se vai ao que se tem de ir.” Instado a dar um exemplo, o estudante não apontou legislação concreta, dizendo apenas que ainda há muito a fazer.

No final da entrevista, David aconselha a olhar para as causas sociais de forma individual e de mente aberta: “Nunca se deixem levar pelas gordas, pelos títulos enormes ou pelos alertas CM. O essencial é mesmo as pessoas olharem para as causas através dos seus princípios e valores, e acreditarem nelas porque realmente acreditam.”

Artigo editado por Filipa Silva