Gustavo Carona tem 38 anos. É médico anestesista e trabalha no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. O seu percurso profissional podia ser como tantos outros. Mas a vida levou-o para lugares onde as bombas fazem parte do dia a dia de quem lá vive.

Tudo começou com umas férias em Moçambique. Foi aí que a vontade de aplicar a medicina onde ela é mais precisa surgiu no antigo estudante da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. O médico viu-se confrontado com as condições de vida da população moçambicana, e levou “um murro no estômago”, como revela no livro “O Mundo Precisa de Saber” (Ego Editora), lançado há um ano.

A obra reúne um conjunto de relatos que, mais do que a mera descrição dos conflitos, dá a conhecer as pessoas que sofrem em consequência deles.

Com o desejo de colocar os seus conhecimentos ao serviço de quem mais necessita, o clínico decidiu integrar uma missão de voluntariado dos Médicos Pelo Mundo em Moçambique. Mais tarde, conheceu a Médicos Sem Fronteiras (MSF). Identificou-se com o propósito e com a forma de trabalhar da organização. “Percebi que organização era a ligação perfeita entre os meus sonhos e a realidade atual”, refere.

Desde 2009 já participou em mais de dez missões humanitárias. Moçambique, República Democrática do Congo, Paquistão, Afeganistão, Síria, República Centro-Africana, Iraque, Burundi, Iémen, Faixa de Gaza e Sudão do Sul foram os países onde o anestesista já trabalhou.

As missões humanitárias são um desafio. “Têm-me dado muito prazer e o facto de estar dedicado a causas que me preenchem, que me estimulam e me motivam faz sentir-me bem comigo próprio.” Mas o trabalho está longe de ser fácil.

A barreira linguística é um dos maiores obstáculos do trabalho em missão. “Não falar a mesma língua é uma barreira muito grande, dificulta imenso. O trabalho de um médico é falar com as pessoas, perceber o que nos estão a contar, partindo do princípio de que elas nos ouvem. Tenho a noção que se partilhássemos a mesma língua provavelmente faria melhor o meu trabalho. Mas o ideal e o possível não estão sempre juntos, por isso, faço o possível.”

Gustavo Carona trabalhou sempre em contexto de guerra e afirma que as consequências indiretas da guerra são muito mais graves que as diretas.

“Os conflitos não são só as pessoas que morrem nas bombas. Isso é uma percentagem ínfima de um conflito. Morre muito mais gente pelo facto de não haver medicamentos, de os profissionais de saúde terem de fugir, por as Organizações Não Governamentais (ONGs) não conseguirem trabalhar, por não haver antibióticos, água e eletricidade. As pessoas morrem por uma falência daquilo que é normal”, descreve em entrevista ao JPN.

O voluntário considera que é mau sinal quando as profissionais de saúde e as ONGs têm de abandonar os locais por ser impossível garantir um mínimo de segurança. “É gritante perceber que os profissionais de saúde e as ONGs estão muitas vezes muito perto do perigo e ainda assim têm de abandonar os locais. Isto quer dizer que as coisas estão muito mal”, diz, a propósito da retirada da MSF do nordeste da Síria devido a uma ofensiva turca no mês passado.

Salvar vidas

O médico já salvou centenas de vidas, mas confessa ser difícil seguir em frente quando algumas terminam nas suas mãos. “Eu fico absolutamente frustrado, desfeito e magoado”, conta.

O médico recorda que, no Paquistão, uma mulher morreu nas suas mãos porque o marido não autorizou que tocassem na esposa. Considera este caso “paradigmático do que acontece no pior dos piores”.

“Nós não conseguimos dissociar o que são as leis, a cultura e a interpretação daquilo que é a religião em determinadas culturas. Isto é dolorosíssimo. E, neste caso, o papel diminuído da mulher na sociedade é triste. Eu acho que tudo na vida é negociável, menos os direitos humanos. E estas questões chocam com os direitos humanos, por isso, parecem-me inaceitáveis”, afirma.

Embora, Gustavo Carona se sinta revoltado com este tipo de situações, tenta respeitar as diferentes culturas e evita cair na tentação de agir de forma etnocêntrica: “O nosso papel enquanto médicos é atuar com o que temos, não podemos correr o risco de ter uma agenda escondida, de tentar modificar as pessoas, achar que a nossa maneira de ver o mundo tem de ser igualada em todos os cantos do planeta. É um conceito muito errado.”

Apesar destas situações e de muitas vidas que chegam ao fim nas suas mãos, é preciso força para lidar com o sofrimento e continuar a salvar vidas. O médico confessa que, com o tempo e as várias missões, vai lidando melhor com o sofrimento e vai ganhando mecanismos de defesa.

“O facto de nos acontecer com frequência, é uma reação de defesa, de construção da normalidade. Estamos mais preparados para seguir em frente e reagir melhor a sentimentos negativos.”

Para o portuense, “lidar com a vida e a morte ao mesmo tempo tem sido um desafio maior.” Revela que tem sido um desafio “construir isto sem perder a força e a energia de querer continuar a valorizar a vida”.

Após perder alguém, o médico voluntário tenta encontrar uma forma de se abstrair e de se sentir útil. “A minha salvação é ser preciso. Só encontro solução quando é preciso fazer outra coisa enquanto médico, quando sou obrigado a atuar. Portanto, tenho de canalizar a minha força, energia e atenção para outro lado.”

Vontade de agir

Gustavo Carona conta que, nas primeiras missões, sentiu uma necessidade muito grande de chamar a atenção para os conflitos que se passavam nos locais onde trabalhou. “A minha vontade era dizer: olhem para aqui! Vejam estas pessoas! Porque é que não se fala disto?”, recorda.

Assim, com o “peito cheio de emoções” e vontade de alertar, decidiu começar a escrever. Criou um blogue onde partilha o que vivencia em missão e conta as histórias de quem vive na guerra.

Foi também movido pelas emoções que decidiu lançar um apelo nas redes sociais antes da sua partida para Mossul, em 2017. Com o objetivo de alertar para a crise humanitária vivida nessa cidade, fruto da ocupação do Estado Islâmico, o médico pediu que lhe enviassem mensagens de esperança para serem entregues aos habitantes de Mossul.

Antes de partir, andava a pensar no que é que podia levar. Sabia que não podia levar mesas, cadeiras, mas podia levar palavras”, afirma.

O clínico recebeu centenas de mensagens de apoio de portugueses.  Conta que muita gente se revê nas ações da MSF e, portanto, o “livro materializa isso.” “Levei comigo as pessoas que acreditam que este é o caminho.” Assim, as mensagens foram traduzidas para inglês e árabe, e compiladas no livro “1001 Cartas para Mossul” (Editora Omega) que Gustavo Carona levou consigo.

“Em Mossul houve respostas muito bonitas e as pessoas ficaram tocadas com o simbolismo deste livro. Não acabou com a guerra, mas acho que aqueceu muitos corações”, afirma.

Em 2018, lançou o livro “O Mundo Precisa de Saber”, sobre as missões na República Democrática do Congo, no Paquistão, no Afeganistão e na Síria. “Eu quero que o meu livro seja uma oportunidade para que se perceba que podia ser qualquer um de nós a lá estar”, diz. O médico acredita que se os leitores se identificarem com a história, podem pensar no que devem fazer para tornar o mundo melhor e, de facto, agir.

O Regresso

Os regressos são também missões. A gestão dos sentimentos e a dificuldade de os partilhar, é, por vezes, angustiante. “Há emoções que não se conseguem transmitir, há muita coisa a acontecer neste coração.

Gustavo Carona recorda a angústia que sentiu quando regressou da Síria. Dois dias depois de aterrar em Portugal, o médico soube que cinco companheiros de missão tinham sido raptados pelo Estado Islâmico, na Síria. Sobre o caso em concreto, opta por não dar pormenores, mas volta a sublinhar: “Para mim, são cinco amigos que fazem parte da minha vida. Para os meus amigos [portugueses] essas pessoas não são nada, são só mais uma notícia na televisão. Isto é muito difícil, as pessoas não têm essa empatia. Há uma distância de mundos, de realidades. E isso faz com que as pessoas não percebam.”

Agora, Gustavo Carona não tem prevista nenhuma missão. “A minha vida é aqui no Porto, nunca quis deixar de ser médico em Portugal. É uma fase que não sei se será eterna ou se amanhã vou partir em missão. Não estou preocupado em fazer planos.”

Regressou há pouco do Sudão do Sul e continua com “muita vontade de escrever sobre emoções fortes das missões que ainda tem por escrever”, remata.

Artigo editado por Filipa Silva