O JPN foi procurar os empreendedores de Ciências da Comunicação e conhecer os seus projectos. A Comni, a Modal, “O Golo” e a rede “Porto24” são exemplos de iniciativas criadas por alunos e ex-alunos do curso

A Comni “surgiu ainda em 2003 pelas mãos de alguns dos primeiros alunos do curso. Nasceu da “vontade de aplicar o que se tinha vindo a aprender”, revela Rita Fonseca, uma das mentoras da empresa. Trata-se de uma agência de comunicação que aplica as três áreas de especialização em Ciências da Comunicação: Assessoria, Jornalismo e Multimédia. “Sempre achamos que as três áreas eram complementares e que reuni-las numa só empresa seria uma mais-valia”, refere, o também fundador, Pedro Portugal.

Já a Modal surgiu em 2008. Bruno Moreira estava no 1.º ano do curso quando foi convidado “para fazer alguns trabalhos” por uma colega da Escola Superior de Artes e Design (ESAD). “Passado um ano, nasceu a empresa com loja aberta ao público”, conta. Sediada em Gaia, a Modal funciona fornece serviços de artes gráficas no front office e no back office como agência de publicidade, que actua nas áreas do design de interiores e design gráfico.

Na vertente de jornalismo encontramos “O Golo”, um site de jornalismo desportivo que “nasceu de uma conversa entre amigos à porta da faculdade”. Três recém-licenciados (David Fernandes, Filipe Dinis e Duarte Monteiro) temendo a árdua entrada no mercado de trabalho, resolveram criar o seu próprio espaço. “O Golo” esteve online durante cerca de um ano, mas vários constrangimentos ditaram o seu fim, mesmo depois de uma parceria com a Clix. Hoje, Duarte Monteiro é editor do Clix Desporto, site que “recebia grande parte das notícias d’”O Golo”, como o próprio conta.

A rede Porto 24 é ainda um projecto, que deverá estar online nos próximos meses. Trata-se de uma rede de informação local do Grande Porto, composta por um jornal local, uma revista de arte, cultura e lazer, um guia de locais alimentado pela comunidade, uma agenda de eventos, um espaço que agrega toda a actividade na internet relacionada com o Porto (Planeta Porto) e um grupo de blogues temáticos de convidados.

“‘Comunidade’ é o que faz deste conjunto de sites uma rede”, esclarece Ana Isabel Pereira, ex-aluna e mentora do projecto, tal como Pedro Rios e Pedro Candeias. A equipa fica completa com Pedro Rebelo, especialista em engenharia de redes de comunicação.

Da Universidade para a Gestão

Quando se parte para a gestão de um projecto, os conhecimentos adquiridos têm um papel fundamental. Duarte Monteiro, por exemplo, acredita que “todas as bases que se levam do curso são muito importantes”. A vertente prática da formação, o estágio profissional e a possibilidade de colaboração com projectos internos do curso foram fundamentais para preparar “O Golo”, refere o jornalista.

Quem decide criar um projecto de raiz, cria emprego, não só para si, mas também para outros colegas de curso. A Modal conta hoje com mais dois ex-alunos do curso como colaboradores: Graça Salgueiro e João Melo. “Fico muito feliz por ter dado a oportunidade a duas pessoas do curso que frequentei”, afirma Bruno Moreira. João estava há ano e meio desemprego; Graça bateu à porta da Modal mal terminou o curso em 2009.

Também a Comni emprega hoje duas pessoas de Assessoria do curso e já incluiu na sua equipa licenciados em Multimédia e Jornalismo. Para Rita Fonseca, a razão é simples : “conhecemos o curso e sabemos a base e a preparação que os alunos têm”. Pedro Portugal acrescenta: “não há um favorecimento de ninguém, [a verdade é que] são os que estão mais bem preparados em Assessoria”.

“Às vezes andávamos a pedir uns aos outros para tomar café”

A falta de experiência, a escassez de recursos financeiros ou a falta de reconhecimento no mercado afiguram-se como dificuldades para aqueles que se lançam em projectos próprios.

Para erguer a Comni, o maior obstáculo com que Rita Fonseca e Pedro Portugal se depararam foi a dificuldade de “ganhar credibilidade no mercado”. Foi necessário “conquistar a confiança dos clientes”, lembra Pedro, esclarecendo que foi realmente “a qualidade do trabalho que fez toda a diferença”.

Actualmente, a Comni é uma empresa reconhecida no mercado, tendo como clientes entidades como a Fundação Serralves e o Turismo Porto e Norte de Portugal ou a empresa de tintas CIN. Neste momento a empresa está numa fase de mudança. A Comni vai dar lugar a duas novas empresas especializadas: a AIR, empresa criativa de comunicação, e a Brands Embassy, da área de negócio de marca.

A falta de experiência, principalmente quando se está ainda no início do curso, pode ser também um grande entrave. “Não tínhamos noção dos processos e rotinas da empresa”, afirma Bruno Moreira. Com o crescimento, a Modal “foi sendo limada” e a qualidade dos trabalhos foi aumentando. Outro problema para Bruno Moreira foi conseguir conciliar a Modal com a faculdade. “A partir do momento que a loja abriu e os recursos humanos aumentaram, tornou-se muito complicado”, explica. Mas terminar o curso é, para si, “uma questão de dignidade”, pelo que não só planeia terminar a licenciatura, como investir num mestrado ou pós-graduação.

Outro incontornável entrave é a questão financeira. Duarte Monteiro recorda que, num momento inicial, “nenhum dos três [fundadores do site] tinha dinheiro no bolso”. “Às vezes andávamos a pedir uns aos outros para tomar café”. A ajuda dos pais foi essencial para criar as bases d’”O Golo” até se conseguirem patrocínios.

A rede Porto 24 ainda não está em funcionamento, mas, para os seus criadores, o financiamento é já uma preocupação. Se até agora os três sócios usaram capitais próprios, “a ideia, para os próximos meses, é ter um site em versão protótipo, com grande margem de progressão, dependente dos financiamentos” que a rede consiga obter, explica Pedro Rios.

“Só avança quem arrisca”

Para avançar com a Comni, Pedro e Rita deixaram os empregos que tinham. O mesmo aconteceu com Duarte para erguer “O Golo”. Pedro Rios, Pedro Candeias e Ana Isabel Pereira passaram a trabalhar apenas por conta própria para conciliarem o emprego com o Porto 24. Já Bruno pôs os estudos num segundo plano para conseguir fazer crescer a Modal. Será que vale a pena correr estes riscos?

“Vale mais a pena do que ficar à espera que as coisas caíam do céu”, afiança Duarte Monteiro. É fundamental não ter medo de arriscar, salienta o jornalista, pois “só avança quem arrisca”. Rita Fonseca aponta como principal vantagem de criar um projecto próprio, o facto de se “trabalhar com um dinamismo e força diferente”. “Podemos arriscar mais e seguir as nossas ideias”, defende. Para o sucesso de um empreendedor jovem, Pedro Portugal aponta três ingredientes necessários: “sorte”, “contactos” e “fazer a diferença”.

Bruno Moreira é mais reticente e acredita que um projecto criado por alguém que não tem experiência só vinga se “houver alguém que garanta uma estrutura sólida”. “É fundamental um preparo financeiro, académico e prático”, ressalva. Pedro Candeias concorda: “Acho que é preciso ter experiência de trabalho para uma pessoa se focar em prioridades e saber o que se está a fazer”.

Mas “o mercado pode não dar essa oportunidade de experiência”, alerta Pedro Rios. Para Ana Isabel Pereira, a solução é simples: “há que ir tendo experiências durante o curso.”

Com ou sem experiência, são cada vez mais os alunos e ex-alunos de Ciências da Comunicação que se lançam em projectos empreendedores. Em dez anos, muitas empresas nasceram e algumas são já referências nas áreas em que actuam.